28/01/2018

Crônica 68 - Tramp stamp... e meu coração de menino


Tramp stamp. Tramp stamp. Tramp stamp. Foi isso o que eu pensei quando entendi o significado. Foi o que pensei quando ela me disse que tinha uma tatuagem num lugar especial. “Uma tatuagem de piranha”, com certeza. Foi isso o que eu pensei. “Deve ser uma dessas tatuagens de borboleta ou, pior, de golfinho, ou, pior, de passinho gordinho ou estrelinhas formando um triangulo sobre as nádegas ou, pior, uma seta na lombar apontando para baixo com alguma legenda do tipo ‘entre sem bater’ ou ‘caminho da felicidade’... ou, pior, ‘a estrada para o inferno’”; para a qual você se pega olhando na hora H. Sinceramente, para mim pouco importa, já que essa é a posição que eu menos gosto... e eu gosto de luz acesa. Enfim, é no que eu penso quando ouço ou vejo uma mulher com tatuagem no cofrinho. Tramp stamp. Tatuagem de piranha. E essa história é sobre essa garota por quem eu me apaixonei ao som de Motley Crüe ou qualquer coisa assim.


Estávamos lá, nos olhamos, ela sorriu, e começou aí o ritual. Todo aquele ritual que é um saco quando se está de saco cheio de todo esse ritual. Deve ser por isso que muita gente se envolve com gente do passado, porque já pode pular essa fase – ou ser uma fase muito menor – de rituais que podem durar dias. Mas é isso aí: estávamos lá, nós dois, nos olhando e sorrindo, e eu pensando o quanto seria bom ganhar dela um beijo, contornar meu braço num abraço sentindo sua coluna e, na melhor das hipóteses, acabar os dois suados, respirando com dificuldade e secos por um gole de água ou um suco de laranja bem gelado.


Ela me disse que já havia me visto por ali, o que achei estranho, pois há anos eu não passava nem perto dali. Nos últimos meses, então, evitei ao máximo. Mas teve um dia que resolvi entrar e pedir um café.

Mas é verdade mesmo, fazia tempo que eu não te via por aqui.

Passei um período fora. – respondi.

E agora ficou com saudade?



Sempre.

― Sempre? Saudade de...

― De tudo. – respondi, meio sem vontade.

― E de uma boa conversa, sente falta? – perguntou ela, se aproximando.

― Adoro boas conversas e gente que tem o que dizer.

― Então a gente pode passar a noite inteira falando e falando... – continuou ela, já com leve circular de dedo sobre as costas de minha mão direita sobre a mesa.

― Bom, se essa for sua ideia, estou dentro.

― Pode ficar por dentro quando quiser. – nessa eu não acreditei, e logo perguntei:

― Essa é seu quinto, talvez sexto drinque? – perguntei e já fui tomando de sua mão e experimentando: vodka, uma fatia de limão e uma gota suave de baunilha.

― Não sei. – respondeu. Eu não conto depois do terceiro.

― E eu, que número já sou para você hoje?

― Acabei de chegar. Você será o primeiro, quem sabe até o único da noite. – atirou ela. Continuando: gostei dessa sua tatuagem. Clássica.

― Valeu. Fiz num momento de felicidade...

― Felicidade? Queria celebrar o quê?

― Um nascimento.

― Nascimento? Tem criança na jogada?

― Não. – rebati. Um nascimento diferente. Nada com o que se preocupar...

― Eu também tenho uma tatuagem, sabe. Na verdade, tenho cinco: uma no tornozelo, estas duas estrelas, uma em cada ombro, e uma aqui no braço, olha: é um coração com uma fita ao redor, também é um clássico, igual à sua; mas ainda não sei o que vou escrever na fita. Talvez algum clichê do tipo “viva rápido e morra jovem”, ou o nome de alguém especial.

― No fim das contas, todos são especiais. Você precisaria de mais fita ao redor desse coração ou então de um coração muito maior.

― Meu coração é muito grande, bobinho. – retrucou ela. Então, pegou minha mão, separou o indicador e encostou em seus lábios com uma leve pontinha de língua.

Eu suspirei.

― Faltou uma.

― Uma o quê? – perguntou ela.

― Você disse que tem cinco tatuagens. Falou uma. Contou uma em cada ombro, a do tornozelo e o coração no braço.

― Pensei que não fosse perguntar. De repente eu te mostro.

― De repente eu bem que gostaria de ver.

― Ah você vai ver. Vai olhar muito pra ela a noite toda se quiser, até desmaiar.

Fiz uma cara de “uhm, tudo bem”, meio que “ah, cala a boca”, misturada com “será que eu estou ouvindo isso mesmo” e uma pitada de “tá, ok”, tudo isso enquanto eu erguia as sobrancelhas e acenava levemente a cabeça.

―Você vai passar a noite por aqui? – perguntou ela.

― Não sei. Pensei em ficar mais uma hora ou duas e ir pra casa.

― Que tal...

E começou a falar no meu ouvido. Coisas deliciosas que só as mulheres sabem dizer. Coisas que te prendem, que te cativam e te seguram pela alma. O tipo de cativeiro que você sabe que não vai e não quer sair, mesmo sabendo que é tudo mentira. E eu adoro.


Meu long drink já estava acabando e a vodka com limão e baunilha dela já havia secado, mas o aroma em seus lábios continuavam desejantes misturados àquele batom vermelho poderoso. Particularmente, não resisto a um batom leve nos lábios de uma mulher. Mas, aquele batom vermelho estava atrativo e poderoso demais. Fiquei pensando “no dia de amanhã” e como tudo aquilo poderia terminar, e cheguei à conclusão de que “o dia de amanhã” poderia ser uma linda continuação da noite de hoje, e fiquei menos paranoico.

― E então, vamos?

― São muitos momentos românticos nessa vida. Vários deles acabam tão rápido e confusos o quanto começaram. Tenho um coração de menino, um coração apaixonado. Um coração que segue qualquer traço de felicidade por mais simples e momentânea que seja, mas que acredita na permanência das sensações. Só um coração de menino.


Porém, ela não estava me enganando. Ela queria o que queria, e uma mulher assim precisa e merece ser respeitada. Uma mulher direta, consciente de si mesma e que sabe o que quer, uma caçadora que sabe escolher. Eu não poderia decepcioná-la. Eu estava indo direto para o abatedouro – num motel qualquer, pensei – e seria esse o meu fim. Com um zilhão de pensamentos na cabeça, com uma só imagem figurando em todos os meus desejos, lá estava eu sendo levado de mãos dadas e às risadas e abraços indiscretos. Meu corpo já não é o mesmo. Já emagreci a ponto de parecer um esqueleto ambulante, e voltei a engordar e agora tenho essa barriguinha e um pouco de bochecha redonda. Mas se ela acha que eu ainda dou pro gasto, ótimo. Ainda tenho fôlego, e mesmo quando perdê-lo, vou ter o maior prazer em me afogar bem ali, no lugar certo, enquanto ela puxa o que restou do meu cabelo e arranha meus ombros e omoplata. De repente tomo outra daquela chave de perda que um dia me fez desmaiar, ressuscitando feito um afogado.


Eu não conseguia ver a tatuagem. Em momento algum ela ficou de costas. Maldita curiosidade. Não curto essa posição. Acho vulgar (que ironia). Não gosto de pedir, e sim, de ser mandado nessa hora. De ser usado. Então ela deitou de costas, esticou o corpo todo na cama, e assim sim eu gosto. Meu deus do céu. Como eu gosto. Assim sim é humano, é real. Há meses eu não via e sentia uma mulher naquela posição, tão íntima, tão confiante.


Tramp stamp. Foi o que eu pensei a noite toda. Pensei que fosse uma daquelas tatuagens vulgares cheias de defeito que alguém faz num momento de alvoroço e paga a conta com o corpo ou com a boca. Enfim, se foi assim, isso não se revelava no desenho.

― Eu sei o que você está pensando. – disse ela.

― Difícil.

― Não. Não é difícil. Você pensou nisso o tempo todo. Dava pra sentir dentro de mim essa fúria da sua saudade. Você transou como se quisesse tirar algo de você, ou trazer algo de volta pra sua vida.

― Vocês mulheres são incrivelmente sensíveis e admiráveis. Não consigo não amar cada uma de vocês por esse motivo.

― Mas tem sempre uma que se ama mais, não tem? – continuou ela enquanto passava meu braço por debaixo do pescoço, deitando a cabeça em meu peito.

― Acho que sim.

― Você pensou que eu tivesse uma daquelas tatuagens de piranha no fim da coluna lombar, né, na linha da cintura.

― Pensei.

― Desculpe te desapontar. – sorriu.

― Não desapontou.

― Mas não era o que esperava.

― Nunca é. – respondi. Nunca é, e é isso o que importa. É não ser o que se espera que nos mantém querendo mais de cada um de nós.

― Você me deixa molhada, sabia. Desde a primeira vez que eu vi algo sobre você. Mas nunca consegui chegar perto. Tinha sempre algum motivo que impedia.

― Estamos aqui agora. Aposto que não sou grande coisa quando visto de tão perto.

― Talvez ninguém nunca seja. – respondeu ela. Nem você, nem eu.

― Discordo. Todas vocês são especiais. Todas de sua maneira, e todas merecem a melhor e maior atenção. Todas são especiais, seja num sorriso, no olhar, no jeito de falar e nos detalhes do rosto, seja no andar, na forma como mexe no cabelo ou no desejo que demonstram pelos olhos e pelo andar... e todas vocês merecem essa atenção e querem se sentir especiais. Pois realmente são. Todas vocês. A bebedeira, o sexo, o caos... nada disso importa. Só vocês. Todas vocês e em todas as formas de amor, pois eu sei que eu continuarei apaixonado.

Foi quando nos despedimos, cada um por seu caminho. Saí pela porta da frente, ela ficou, e tudo o que existia agora sobre a minha cabeça era um chuvisqueiro chato trazido pelo vento. Por dentro, uma tempestade.

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