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17/03/2013

A Selvageria do Silêncio (3)

E continuamos falando. Mesmo quando nos dão as costas. Mesmo quando o que dizemos é o melhor para o momento. Mesmo que tenhamos certeza de que o que fazemos é o certo. Por menor que seja a culpa. Por maior que seja a pena. Mesmo nos ignorando completamente. E continuamos falando.

É assim daqui em diante. Foi assim daqui há anos atrás. Ontem. Hoje. Amanhã. Perpetuação da negação. Continuidade da indiferença. Aptidão à lágrima. Falta de noção da realidade. Escravização da demência; da inoportunidade. Inflexibilidade da rejeição. É assim daqui em diante.

O sim negado. O sim ao contrário. O concordar fingido. A discordância ao concordar. Dizer sim com o não na consciência. As lágrimas mentais desaguando bochechas abaixo. Eloquência sagrada da posição contrária. Nec plus ultra. Non dominus. Non bis in idem. O sim negado.

O inferno é democrático. O céu é pra quem tem medo. O inferno; festeiro. O céu é sóbrio; obscuro. O inferno. Apaziguador. O céu segrega. O inferno; quem quer. O céu; pra quem é mandado. O inferno diz sim. O céu diz talvez. Acolhedor. Quente. Coletivo. O céu cega; luminoso demais. O inferno sim é democrático.

A hipnose do corpo sadio. Fechar os olhos e atirar-se da janela. Maquiado. Bem vestida. Bem vinda, morte. Abrir os olhos e ver o rastro de sangue pingando por cima de si mesmo, atrasado, pois o corpo caiu primeiro. Dizer. Fazer. Querer. Dar. Arreganhar. Chupar com a boca de Madonna. A hipnose do corpo sadio.

Intelectual com cara de safado. Falso dos olhos bicolores. Não é verde nem castanho. Nascido irlandês, escocês, agora com cara de siciliano. Intelectual? Safado! Mentiroso. Escroto. Virgem! Maldito. Desalmado. Não! Mentira novamente. Tem alma, mas não tem coração. Intelectual com cara de safado.

Tem alma, mas não tem coração. Tem ânimo, mas não tem pulsação. Tem mãos, mas não acaricia; apenas desenha pensamentos em papel. Tem alegria, mas não expressão. Tem felicidade, mas não sorrisos. Tem lágrimas, mas não emoções. Tem orgasmos, mas não tem tesão. Tem alma, mas não tem coração.

Tem dança, mas não tem música. Tem amor, mas não tem musa. Tem ódio, mas não tem a quem. Tem paredes, mas não tem vermelhidão. Tem útero, mas não tem mulher. Tem pênis, mas não tem sexo. Tem sexo! Mas, não tem maldade. Tem gosto, mas não tem saudade. Tem dança, mas não tem a música. Tem amor, mas não tem musa.

Tem mente, mas não tem sanidade. É difícil, mas tem facilidade. Tem medo, mas não tem afinidade. Tem culpa, mas não tem veracidade. Tem pés, mas não tem velocidade. Tem esperma, mas não tem necessidade. Tem o que quis, mas não tem liberdade. Tem mente, mas não tem sanidade.

O único passatempo é o tempo passando no espelho. Rodeado de gente que morre aos montes. Sem cumplicidade. A confiança ficou no passado. Sem saudosismo; apenas sinceridade de quem pulou do abismo para dentro da própria cabeça. O único passatempo é o tempo passando no espelho.

15/03/2013

A Selvageria do Silêncio (2)

Separação do potencial. É quando não lhe dão a mínima credibilidade por absolutamente nada. É quando o que fazemos não importa. É quando já não somos ou nunca fomos importantes o suficiente para sermos lembrados. Essa é a separação da mente e do corpo. Separação do potencial.

É quando não se vê mente, mas sim, apenas o corpo. O potencial jogado ralo à dentro. O excremento orgânico sobreposto à natureza do pensamento. Segregação. Apatia às palavras e ao conhecimento. É quando se ignoram o que há por trás dos olhos, e se atém apenas à cor dos mesmos. É quando não se vê mente.


E mente. Comumente. Comum. Mente. Mentecapto. Metacarpo. Mentes-tu verdadeiro. É quando não se vê. Mente! Mente, e diz que compreende. Incompreensível. Mentira de nove modas. É comum assim. Comumente mentimos a mente; e transformá-la em algo que não, para ser aceita. E mente.


Mas se constrói. Se constrói o que não pode ser visto. Se constrói a inexistência. Se constrói o que não é palpável; o que não é vendável. Se constrói o que não tem marca. Não pode ter. Não possui. Não usufrui. Não se usa. Se constrói, assim, a compreensão. Inutilizada. Inútil. Talvez. Mas se constrói.

12/03/2013

A Selvageria do Silêncio - (1)


É quando olhamos para dentro, e vemos que nada vale a pena. Nada realmente vale a pena. Literalmente. Veementemente. Ultrajantemente. Nada vale a pena. Nada vale nada. É quando nos sentimos perdidos, inúteis, limitados, ultrapassados. É quando olhamos para dentro, e vemos que nada vale a pena.


A selvageria do ser humano. Instinto antes de qualquer coisa. Não conseguimos nos livrar do passado primitivo. A selvageria no falar, no andar, no agir, no pensar... No fazer. A selvageria em cada palavra, em cada grito, em cada sussurro. A selvageria do silêncio. A selvageria do ser humano.


É o que acontece. É o que está acontecendo. Regressão. Retrocesso. Desumanização. O ser humano evoluindo para o primitivo. Evolução para trás. Evolução para a ancestralidade do pensamento e do comportamento. O ser humano evoluindo para ser ainda mais animal. É o que acontece.


A resposta é a violência. A selvageria do comportamento civilizado. A busca pelo algo que nunca se tem, e o primitivismo tomando conta da racionalidade. Essa é a resposta. A busca pelo algo que nunca se tem. A sociedade se torna uma rincha de galo. O primitivismo tomando conta da racionalidade. A resposta é a violência.


Esse é o vazio. Tudo pode ser alcançado. Tudo pode ser obtido. Sociedade de consumo. Comportamento agressivo. Tem-se o bem de consumo, mas não se tem o controle da mente. Não se compra comportamento. Não se compra violência. Não se compra a humanização. Esse é o vazio.


Comportamento. O homem afirmando ser o macho, e a mulher apenas mais uma fêmea. Era do tacape. Era do transtorno de personalidade. Era do animal. A resposta romana. A paz proporcionada pela guerra. O círculo. O ser humano buscando algo que está além da vitrine. Violência. Humano insaciável. Comportamento.


Diversão. A diversão é o retrocesso. A questão é correr o mais rápido possível para trás. A busca pela volta. A volta para o sangue. Sem arrependimento. É só comportamento. Humano. Demasiadamente humano, e pronto. Fugir é natural. Não socorrer é um sintoma do apavoro. A diversão é o retrocesso. Diversão.


(do livro A Selvageria do Silêncio - Marco Buzetto - 2013)