26/05/2016

Como disse Mario Quintana

A pergunta feita por Edla van Steen fora:

"Você gosta de literatura norte-americana" e complementou: "Só?"

Eis parte da resposta de Mario Quintana:

“[...] O que devemos à França não é a cultura francesa, é a cultura universal. Toda obra, para universalizar-se, teria de passar pelos tradutores franceses. Se não fosse a França, o mundo ocidental teria perdido Dostoievski. Imagine você o que teríamos de conhecimento da alma humana se não conhecêssemos Dostoievski. Nada. Ou quase nada. Pois, me lembrei agora de Shakespeare. Mas a minha queixa é contra os americanos. Já disse e repito que, se há males que vêm para o bem, há bens que vêm para o mal. Exemplo: os Estados Unidos ganharam a guerra. Resultado: o povo, em geral, só lê os best-sellers americanos que eles nos impingem. São tão ruins que chego a acreditar que sejam apenas literatura de exportação. Enquanto isso, os livros brasileiros bons não são reeditados. Nem são reeditadas as traduções de bons livros estrangeiros. Onde está, por exemplo, minha tradução de Poeira, de Rosamond Lehman, o meu Sparkenbrook, de Charles Morgan?"

Extraído do livro: Viver & Escrever 1. Edla van Steen. 2ed. 2008.

Se você não gostou, leu “daquele jeito” meio que torcendo o nariz, saiba que estas não são palavras minhas, de um simples escritorzinho contemporâneo medito a importante. São palavras de Mario Quintana, um dos maiores e mais consagrados autores brasileiros. Então, quando um escritor atual “reclama” ou teoriza sobre o mercado editorial brasileiro ou coisa do tipo, saiba que não é “dor de cotovelo”, inveja de sucesso.

Existe o descaso das editoras e também o descaso dos leitores, que querem apenas o que brilha nas prateleiras, os livros que, ao final das suas páginas, não nos deixou nada. Existe muito desmerecimento para com os autores nacionais, clássicos e atuais. O tal do “santo de casa”. Mas, saiba que existe base naquilo o que sentimos e dizemos, e que quando damos uma “dura” em alguém por ler apenas o best-seller, não é por inveja. Quintana fez sua parte. Estamos fazendo a nossa.

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