19/05/2016

Sobre as dores e as lágrimas - Crônica 61

Como sempre, aquela minha dor nas costas volta, me torturando feito uma dama de ferro. Na verdade, parece comprimir minha coluna um palmo abaixo dos ombros, bem no meio das omoplatas. Como uma bigorna esmagando a espinha. Gostaria que esse peso fosse de minha capacidade mental, dessa massa cerebral aprisionada num crânio calvo. Mas, acho que não. No fim das contas, talvez seja apenas o peso de alguns meses dormindo, acordando, vivendo com uma postura corporal ruim, mesmo em minha estatura não tão alta, talvez um metro e oitenta. Até nisso. Nunca atinjo as alturas. Estou sempre só um pouco acima da média de qualquer coisa. Não posso me gabar. Quatro meses, aproximadamente. Há quatro meses sinto esta dor. Às vezes só um incômodo. Às vezes, como hoje, uma dor insuportável que se alastra do centro das costas para os ombros e pescoço, às vezes descendo até a lombar, e estranhamente (talvez só para mim), me presenteando com um pouco de enjoos e diarreia leve.

Dizem que o frio faz os ossos gelarem, os nervos doerem. Ok. Pode até ser. Mas, há quatro meses, quando travei a coluna de um jeito impressionantemente cinematográfico – sério, parecia roteiro de cinema de quinta categoria, ou digno de Oscar –, estava um calor insuportável. Verão do tipo “usar protetor solar fator Arábia”. Dias e dias assim, suando só de respirar, feito um peru em véspera de natal. Então, acho que a coisa não se aplica. Estava doendo insuportavelmente durante os dias de verão, e continua doendo nos dias de outono/inverno. Talvez seja mesmo só meu corpo tentando esmagar a si mesmo. Um banho quente ajuda muito. A sensação da água quase a ponto de fervura caindo sobre meu corpo alivia um pouco a dor. Manter o corpo quente parece relaxar os nervos das costas. Talvez tenha a ver com meu tipo sanguíneo, ó negativo, sangue grosso.

Hoje cedo, na hora de levantar – a noite de sono foi muito gostosa –, resolvi espreguiçar, como de costume. Ledo engano. Erro fatal. Um milésimo de seguindo depois de estivar o braço direito para cima, senti uma pontada esmagadora na coluna. Pronto. Ferro. Agora já era. Sim, travei de novo. Velharia. Museu ambulante. Minha coluna deve ser feita de areia, só pode. Quase chorei de dor.
Nas primeiras vezes, sinceramente, chore. Lembro-me de um dia ter levantado pela manhã, ido ao banheiro e tudo mais, depois voltado para o quarto; ao levantar o braço para pentear o cabelo, aquela fisgada maldita. Lágrimas involuntárias. Chorei feito criança indo embora do parquinho – no meu caso, o parquinho era o minuto antes, sem dor.

Se você não está entendendo o que estou dizendo, é o seguinte, pensa assim: Respirar: dói.
Mover o pescoço: dói.
Tentar corrigir a postura: dói pra ca@#$!

Ficar sentado dói. Tentar deitar é um sufoco. Ficar em pé é o único momento em que o incômodo diminui. Mas, não é ficar em pé de qualquer jeito. Não. Você não se dará a esse luxo. É ficar em pé, parado, estático feito uma estátua coberta de cocô de pombo.

Você procura por medicamentos nas gavetas, bolsas, armários, e nada. Quer algo que possa relaxar a musculatura. Uma garrafa de merlot sobre a mesa. Certo, pensa você. Deve servir. Bebe as taças feito água fresca num dia de sol. Quem sabe ajude.

Aquela vontade involuntária de se esticar gostoso feito um gato deitado no sofá? Esquece! Não faça isso. Nunca faça isso se estiver com a coluna travada. Coloque na cabeça que agora você é um ancião, caquético, pré-histórico, mesmo no auge dos seus (quase) trinta anos. Se te pusessem em um museu de cera, muito provavelmente te esqueceriam lá dentro ao fecharem a porta e apagarem as luzes. Sabe aquela imagem clássica de briga de bar quando alguém acerta o outro nas costas com uma cadeira? Pois é. Esse é um de seus desejos. O outro é conseguir enfiar a própria mão dentro das costas, segurar a espinha e esmagar o mais forte possível para ver se encaixa alguma coisa que estava fora do lugar.

Porém, mesmo com dor, você leva sua esposa ao trabalho se segurando para não gemer de dor sempre que passa por um buraco ou um declive, ou respira fundo. Depois disso você para em uma loja de conveniência em um posto de combustível e pede um espresso pequeno (sim, café espresso se escreve com S). A TV está ligada em algum canal de telejornal. A matéria é sobre o frio que se aproxima e já castiga algumas cidades. A entrevistada: uma moradora de rua de seus cinquenta anos com o rosto e a fala mais simpáticos que você já viu em qualquer pessoa. Moradora de rua há cerca de dez anos. A cena mostra ela se emocionando ao falar de seus motivos, depois mostra-a deitada em um banco de concreto e explicando como faz para afastar o frio das noites sem nas ruas um teto sobre sua cabeça. Você sente uma sensação estranha no estômago e na consciência. Sente um pouco de desconforto pela emissora estar cobrindo uma matéria assim, sabendo que estão ganhando dinheiro com isso enquanto a moradora de rua – que poderia ser sua mãe –, continuará lá no final da matéria, durante anos. Sua mente é tomada por um momento de reflexão e nojo de si mesmo. Você faz um retrospecto à velocidade da luz sobre os últimos meses, e percebe que sua vida não é tão ruim assim, mesmo com esta incessante dor nas costas.

Você volta para casa e toma um banho quente.

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Facebook: Marco Buzetto