O evangelho segundo Messias traz a personagem que dá nome ao texto, uma mente carregada de caoticidade e confusão, transformadas todas em violência verbal e física que representam passados do mundo que, de alguma forma, conseguimos superar enquanto humanidade, mas que também, à sua maneira, conseguiram se manter vivos nas mentes de personagens reais tão caricatos quanto àquelas personagens históricas que tanto horror mostraram ao mundo. O fascismo pulsante de uma cadela com os dentes de fora que derrama seu sangue fértil, apesar de tóxico, como nos lembra Bertolt Brecht, se tornou ele um sentimento que se transpõe no tempo e encontra ouvidos em pé sobre os quais repousa como serenas sementes de orquídeas, fecundando com beleza atraente de cores vívidas – no primeiro momento; um sentimento carregado por gerações, ora como lembrança aterrorizante, ora como adubo para o ódio que justificará impulsos, paixões e ações conduzidos pelo próprio ódio contra frustrações individuais que encontram seus pares na realidade de cada tempo. Messias, aqui, não é apenas aquele sobre quem depositam esperanças, seus medos dos dias reais, suas vontades de mudar as coisas sabe-se lá de qual maneira, porque se sabe apenas que o indivíduo sofre e quer ver a mudança em seu tempo, unindo esperança, ignorância e ódio tornados combustível da fogueira sobre a qual todos nós, acorrentados ou não, podemos um dia arder até os ossos.
A vida de Messias, um político de quinta categoria que habitava o esgoto da política, esta vida muda à medida em que muda também a sociedade, e quando vê uma terra fértil em que existem os nutrientes e condições ideais, faz ele desta realidade sua convicção para se tornar o líder que salvará o Brasil – quem sabe o mundo – das garras do maligno. E como bem sabemos, o inimigo é sempre o outro, seja quem for, pois não é necessário explicar, apenas apontar a direção contra quem se deve atacar, e deixar que cada um escolha seus próprios demônios para justificar suas ações.
Messias, aqui, ascende ao poder rodeado de pessoas tão ou mais caóticas quanto ele, que muitas vezes fazem dele marionete para conquistarem seus objetivos, sejam eles, quem sabe, apenas apagarem seus rastros ou terem o Poder nas mãos para encobri-los. Duas esposas, filhos, cúmplices, pastores, assessores, bajuladores, apresentadores de programas populescos de auditório, personagens do imaginário popular que vão e vem sem que percebamos, a tempo, o que falas e atos não avaliados causam à sociedade. Realidades circunstanciadas que criam ilusões e as transformam em realidades tão densas das quais se torna quase impossível sair.
A exemplo da personagem, a confusão do real-ilusório nos mostra todas as facetas de realidades possíveis, mesmo incrédulas, mesmo inesperáveis, inusitadas; e torcemos, muitas vezes, para que não passem de uma ilusão de dentro, e somente de dentro da cabeça de alguém, permeando o sentimento de, como que para muitos, nada ter acontecido.
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