18/12/2014

Crônica 56: Procura-se emprego em área desconhecida.


De repente você se vê com quase trinta anos. Quase trinta. Olha para trás e dá de cara com um filme que passou tão rápido que não dá pra entender nada. Tudo bem, você fez muita coisa legal nesta (curta) vida. Mas, passou tudo tão depressa que a tendência a ficar tudo ainda mais rápido te assusta. Daqui para o fim é um passo (depois do outro, e do outro, mais rápido e rápido).

Estava pensando em todos os empregos que tive. Dos mais variados. Às vezes, um pior que o outro, um mais chato e entediante que o anterior. Tudo bem, a grana pingava no fim do mês (mas, é só sobre isso? Grana?). Fiz tanta coisa que nem me lembro mais. Quando me perguntam, é como se eu perguntasse a mim mesmo: “o que eu já fiz na vida”? Quase trinta, certo. Vida relativamente curta. Ok. Estilo “viva rápido e morra jovem”. Ainda não chegou a hora, mas, sim, tudo passou muito rápido.

É quando chega aquele momento estranho de pensar no futuro. Não que tenha faltado alguém para me dizer isso enquanto mais novo. Acho que não dei ouvidos. Se dei, levei minhas vontades mais a sério que às necessidades futuras.
Olhar para frente, para o futuro, agora, é assustador. Pois, o futuro não está mais lá no futuro. Não. Está bem ali, batendo na porta, daqui a seis meses. Rápido como um piscar de olhos. É quando se pensa: “Preciso virar adulto agora”. É quando se pensa: “Chega! Quero me casar, comprar uma casa, ter um emprego de verdade”. Penso muito assim nos últimos meses: cortar o cabelo, voltar a trabalhar como uma pessoa normal, um emprego normal, assalariado. Sem essa de sonhar e contar as moedinhas no fim do dia para tomar um sorvete à noite.



Mas (mas), e aí? Apesar de ter uma noção gigantesca de adaptação, seria feliz? A felicidade tem a ver com isso? Talvez meu mal seja “pensar demais”, ponderar demais. Felizes os que fazem por fazer e ponto final. Olhar para trás e pensar: “O que eu fiz da vida até agora”? é assustador. Porém, mais assustar ainda é pensar: “O que eu farei da vida de agora em diante”? Isso sim é assustador, pois, envolve muito mais importância, muito mais seriedade e responsabilidades.

Sim, talvez seja isso: um emprego com a menor responsabilidade possível que pague as contas no fim do mês. Estilo Lester Burnham (Kevin Spacey no filme Beleza Americana na cena em que ele consegue um emprego em uma loja de fastfood). Alguma coisa simples, sem precisar pensar. Só prestar um serviço mecânico. Talvez seja esse o segredo. Sem levar nada pra casa. Sair do trabalho, pensar: “dane-se tudo isso”. Afinal, daqui a pouco todos nós viraremos adubo de qualquer jeito. Pensar me faz pensar.
Mas, de verdade, preciso de um emprego. Isso de escritor, professor sem carreira, “microempresário”... Não mais. Medo, sim! Muito medo. Sim. O tempo todo. Acho que alguns, como eu, não nasceram pra isso (isso de ficar parado, encostado, fazendo uma coisa só).

É viciante fazer várias coisas ao mesmo tempo. Não sobra tempo pra nada e ao mesmo tempo sobra tempo pra tudo. Se faz uma série de coisas hoje e amanhã pensa: “Certo, o que faço hoje, o que farei amanhã”? Fazer de tudo um pouco não deixa margem para o futuro. Não sobra nada, entende? Quase trinta e já fiz de tudo. Será que de agora em diante é só tédio e conformidade ao som de Billy Idol?

Preciso de um emprego. Um emprego descente, de verdade, que pague as contas no fim do mês e sobre algum para fazer o clichê de pé de meia. Preciso de um emprego, mas não faço a menor ideia em que área. Vontade de fazer tudo ao mesmo tempo como sempre. Ser tudo o que eu posso o tempo todo. Mas, e aí? E o futuro? O futuro é agora? Pode ser. O que fazer agora, então? Esse agora envolve o amanhã, o depois e o depois, ou é só essa besteira poética de “seja feliz hoje”? Vai nessa. Pense assim. Continue pensando assim, que o amanhã não existe e que o agora é que faz sentido. Amanhã você irá reler esse texto, daqui a dez anos você irá reler esse texto e fará as mesmas perguntas a si mesmo. Talvez até diga baixinho: “não é que ele tinha razão”?

Não continue a vida fazendo coisas que só existem dentro da sua cabeça. Faça algo por alguém. Dedique-se a vida e compartilhe-a com a pessoa amada. Encontre um emprego, mesmo que seja algo que você não gosta. Por mais que não pareça, a vida é longa e, de repente, as coisas mudam. Amanhã você encontra coisa melhor. Ou melhor: amanhã você se encontra.

Deve estar pensando: “escreveu tanto para ser otimista no final”? Pois é, meu amig@. Esse é um dos mistérios da vida: a contradição. A vida também é muito confusa, então, acostume-se em tomar uma decisão hoje e mudar completamente os rumos da (sua) história amanhã. Quem disse que a vida é justa e que tudo sai como o planejado? Além do mais, quem disse que você tem que ser feliz para ser feliz?
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