01/05/2014

#SomosTodosHipócritas!

Sim, somos todos hipócritas. Todos grandes hipócritas, donos de uma hipocrisia tão bem construída que é hipócrita consigo mesma.

Sem querer aderir à campanha de postar foto comendo banana em solidariedade para com o caso do jogador Daniel Alves (Barcelona), que ironizou, e muito bem, diga-se de passagem, o fato de torcedores atirarem a fruta ao campo em sua frente, claramente chamando-o de “macaco”, prefiro dizer que #SomosTodosHipócritas! Exatamente isso.

Admirei a dei risada ao ver, posteriormente ao jogo, pois não acompanho futebol, o jogador tomar aquela atitude. Foi um tapa na cara, como quem desse com os ombros dizendo: fodam-se!
No entanto, após ver dezenas de pessoas, anônimos e celebridades, postando suas selfies segurando ou comendo banana, pensei: sim, a hipocrisia come solta (não come banana). É verdade que existe um sistema de marketing gigantesco por trás destes comedores de banana oportunistas que pipocaram aqui e acolá se dizendo “solidários” contra a questão do racismo. Porém, não podemos nos esquecer de que vivemos em um país (imenso) repleto de culturas, diferenças, desigualdades e questões distintas entre os seres humanos tão grandes quanto este mesmo território.

O preconceito está em todas as partes. Chamar afrodescendentes de macacos é piada velha, mas persistente (infelizmente). As minorias de classe, agora dizendo sobre todos os aspectos sociais, não somente afrodescendentes, não são obrigados a comerem apenas bananas. Se fosse isso estaria ótimo. Mas vivem obrigados a comer merda produzidas por babacas racistas e/ou preconceituosos no dia a dia, desde o trabalhador braçal ao magnata da mídia.
Entretanto, quero lembrar que este é o país dos grandes preconceitos e também das grandes causas contra os grandes preconceitos. O Brasil, mesmo com todas as suas políticas de igualdade entre classes sociais e grupos étnicos, é um país muito novo, assim como muitos criados também sobre dogmas preconceituosos e excludentes, e está longe, muito longe de ser um país sem ações racistas como a que aconteceu e diariamente acontece em toda parte.
Preconceito contra nordestinos, nortistas, sulistas; mulheres (sexismo), homossexuais e suas classes; classes sociais etc.; este é o Brasil, que se uni em momentos nos quais todos parecem gostar de abraçar uma causa e salvar as florestas e as vaquinhas, mas que em seu cotidiano fazem de tudo para conseguirem vantagem uns sobre os outros.

Como já disse em outros momentos, não pregando o fato, mas avaliando de maneira imparcial dentro de contextos fenomenológicos da sociedade, os preconceitos sempre existirão. E não falo sobre questões de cor, credo, sexo... não. Os preconceitos existem, pois são intrínsecos ao ser humano, fazem parte da humanidade. Se não existirem por questões nítidas, (como cor da pele no referido caso) existirão em questões sociais, econômicas, questões triviais... Mas sempre existirão.
PORÉM, e é aqui que me redimo neste último parágrafo (talvez controverso): por mais que estes preconceitos existam na essência do ser humano, o mesmo não pode julgar seu próximo baseado nestas questões. O Estado, como um todo, não pode admitir que o racismo seja uma forma de representatividade popular. Atos assim deveriam ser inconcebíveis (tanto quanto a utilização de fatos como este por agências marketeiras e oportunistas).
A única lição que podemos tirar do caso: o torcedor foi banido permanentemente. Como o próprio jogador disse em entrevista após sair do gramado: "Estou há onze anos na Espanha, e há onze anos é igual... tem que rir desses atrasados”. Isso demonstra a sagacidade do jogador frente a tantos momentos iguais (ou piores) pelos os quais já passou, e demonstra mais ainda a inferioridade, agora sim, de pessoas que consideram engraçada ou correta a tentativa de humilhação de outro ser humano.

Enfim; este é um assunto para milhares de palavras. Mas...
Finalizo aqui este texto lembrando que não somos todos macacos; não somos todos maconheiros; não somos todos perfeitos; não somos todos heróis da resistência. Mas, somos todos humanos, e como estes, #SomosTodosHipócritas, que cotidianamente somos coniventes (por meio do silêncio ou da reprodução silenciosa) com práticas preconceituosas em todos os níveis, camadas e meios sociais.
O que podemos fazer, afinal, é educar a nós mesmos para que as futuras gerações (se que é existirão) sejam cada vez menos preconceituosas do que somos. Ou, no mínimo, mais toleráveis com a diversidade humana.

(Obs.: fico a disposição de quem quiser discutir o assunto de maneira adulta. Releiam o texto antes de me encherem de comentários enraivecidos).


Marco Buzetto | 01/05/2014