02/04/2014

Carta de Repúdio aos Estupradores. - 02/04/14

#VocêsNãoSerãoEstupradas!

Me sinto indignado, chocado e, no mínimo, envergonhado com tamanha ignorância de parte de alguns “homens” em relação às manifestações contra o estupro iniciadas em Março. Sinceramente, não consigo compreender a quantidade de homens expressando abertamente seus conceitos e razões que justificam o estupro como prática comum, ou mesmo necessária, como forma de “lição de moral”. Quando vejo situações assim, me sinto tão agredido, tão humilhado quanto às mulheres.

Realmente tento, e tento muito, encontrar uma resposta que engane a mim mesmo. Mesmo como professor, como escritor, filósofo... Enfim, não consigo. Pois, estas pessoas estão envoltas em uma imbecilidade tão grande e grotesca que anulam minha capacidade de análise. Não consigo conceber a ideia de hoje, século 21, alguém ainda abra a boca pra dizer que “mulher merece ser estuprada se estiver usando ‘roupa vulgar’”. Não me desce nem com água, nem com vodka.

Há dois anos também realizo campanhas contra o estupro e contra a violência contra as mulheres. Também encontro algumas restrições (também de mulheres). Aparentemente, falar de estupro é quase que a mesma coisa que mandar a mãe de alguém tomar naquele lugar. Em 2013 fiz um quadro em forma de protesto, e deste fizemos cartazes, com a frase “Por favor, não me estupre”. Com esta frase, quis retratar a súplica desesperada de mulheres violentadas no ato da violência. Bom, teve gente que me condenou dizendo que “essa frase inferiorizava ainda mais as mulheres”. Isso não incomodou tanto, pois explicava o sentido e ficava tudo certo. Mas, o que me incomodou, foram mulheres que viam os cartazes e diziam: “não sei se posso compartilhar a campanha, a mensagem é muito forte”. Eu respondia: “Mas o estupro não é uma violência muito forte”? O mesmo acontecia com alguns homens, que usavam o mesmo artifício para não aderirem à campanha.

Estou dizendo isso, pois, pelo o que parece, a coisa só é séria de verdade quando alguém perde a vida, ou quando uma mulher de qualquer idade tem seu corpo massacrado por uma violência tão primitiva e repulsiva quanto o próprio ato e pensamento de pessoas a favor do estupro.

Além disso, me indigna a postura do “... poderia ser pior”; “estuprou, mas não matou”; “bateu, mas não violentou sexualmente”... E por aí vai. São posturas medíocres, coniventes com a banalização do assunto, transformando o estupro em uma prática tão natural quanto o sexo convencional, e que ainda torna a vítima uma culpada.

Querem falar de dados? Ok. Segundo a Organização das Nações Unidas, 1 em cada 4 mulheres foi ou será estuprada ou violentada de alguma forma ao longo de sua vida. Acha pouco? Certo. Passeiam 4 mulheres (falo para os boçais): sua mãe, sua irmã, sua tia e sua prima. Em algum momento uma delas será agredida. E aí, a coisa mudou de figura? Em algum momento sua mãe será abusada sexualmente, ou então sua filhinha terá o corpo brutalmente rasgado por um adulto totalmente avesso a razão humana. Depois disso, fica pra você a responsabilidade de explicar a elas que isso é totalmente normal, segundo sua visão.

Continuando.
Como não consigo avaliar de uma maneira mais aprofundada, pois não existe profundez nestes casos de aberração ultramachista e sexista destes homens... Me faltam palavras. Gostaria de fazer uma análise social, sociocultural, filosófica, mas não posso, pois a fala destes seres é tão cretina e superficial que não me deixam pensar ou ficar quieto, pensando que nada está acontecendo. Gostaria de olhar nos olhos de um cidadão desse nível e dizer, sinceramente: “Você é a favor do estupro, então? Vista uma cinta-liga em sua mãe e divirta-se, amigo”. Mas não posso. Gostaria de vestir em mim um lingerie super sensual e pedir pra pessoas assim tentarem me estuprar, já que a questão é a roupa.

Posições fascistas assim (independente da posição política do indivíduo), me fazem acreditar piamente que o Brasil não é mesmo um país sério. Se o fosse, só o fato destes “homens a favor do estupro” apoiar esta prática já os levaria a jure pela incitação e apologia a violência contra as mulheres e a sociedade. Gente assim precisa, no mínimo, de tratamento psicológico para entenderem que o que estão dizendo está absurdamente errado, quanto mais incitar a prática.

É o tal negócio: a culpa nunca sairá das costas das mulheres. Pode se cobrir com uma burca, e mesmo assim a culpa será sua, caso seja estuprada ou sobra outro tipo de violência. Vestiu saia? Pode por a calcinha pro lado e deixar alguém te violentar, pois é isso o que você quer. Conversou duas palavras a mais do que supostamente deveria com os colegas de trabalho? Imagina!, você não tem a menor vergonha e está se oferecendo. Mulher não pode conversar com homem, não. Pois, qualquer coisa é motivo para a mulher ser taxada de vagabunda. Os homens, porém, estes que só pensam em sexo e fazem qualquer coisa pra gozarem, estes sim estão certos. Esse cara do seu lado que te come com os olhos a ponto de constranger a todos, esse sim está certo. Esse imbecil que seca sua bunda sempre que você passa, esse sim é macho de verdade e está coberto de razão. Você, mulher, serve pra isso. (Espero que entendam a ironia deste parágrafo).
Na hora da queixa, os policiais ainda lhe perguntarão: “... mas, você estava vestindo o que quando foi estuprada? Será que se estivesse de calças isso aconteceria”?

Só gostaria de entender uma coisa simples: estou vendo muita gente (homem) dizer e escrever, e até se manifestar a favor do estupro dizendo que mulher que usa roupa “vulgar” merece ser estuprada. Isso me faz pensar: então todas as mulheres que estão em uma praia precisam ser estupradas urgentemente. Carnaval, então, nem se fala. Natação e esportes olímpicos com maiô... pior ainda. Uma mulher de babydoll é um convite ao abuso. Usou decote, ferrou.

Por favor, imbecis que buscam desculpas bizarras e inacreditáveis para transar de alguma forma com um ser vivo, fica aqui meu pedido: se matem, toquem uma bronha, paguem uma prostituta, cortem seus paus fora. Mas não pensem que podem violentar uma mulher pelo simples fato de ela existir. Seu corpo é da sua conta. O delas é da conta delas. Se querem fazer topless ou andar por aí de bikini, isso não é da sua conta. Ninguém tem o direito de agredir ou julgar outra pessoa e violentar seu corpo.

Para mim, quem supõe que sim, que as mulheres devem ser estupradas ou sofrer violência de sexual... para mim já são estupradores, independente de cometerem o ato ou não. Qualquer um pode ser preso por apologia ao crime, ao uso de drogas... Por que não pode ser preso por incitar a prática do estupro? Exílio psicológico seria pouco.

Se são a favor do estupro, e podem dizer isso abertamente sem sofrerem nenhuma consequência legal, então eu poderia pedir aqui: “mate um estuprador”. Poderia? Tudo certo, então? Ok. Seria melhor assim. Diminuiríamos a quantidade de ignorantes, de monstros sociais, psicopatas que veem na violência contra a mulher o único modo de satisfação.
E não falo apenas do estuprador ocasional. Falo do parceiro que maltrata a mulher na cama, no dia a dia. O sexista que gera preconceito sobre posições sociais femininas... Falo de todos os aspectos, todos os níveis de todas as camadas sociais: sexistas, machistas, ultraconservadores. Falo do homem que diz ser liberal, a favor das conquistas das mulheres, que faz tudo certinho, cumpre seus deveres... Mas que, sempre que pode, vê e fala da mulher como e simplesmente um objeto sexual. “O que? Ela não quer fazer anal? Onde já se viu... Mulher tem que deixar, se não, não é sexo”. “Ela não deixa gozar na cara? Como assim? Que filha da p#%@. Mulher gosta de apanhar na cara”.

Concluindo (se é que posso).
fonte: perfil da jornalista no Facebook
Sou completamente a favor de absolutamente todas as manifestações que buscam colaborar para uma sociedade melhor, e mais ainda a favor daquelas que pretendem aniquilar a visão das mulheres como objetos sexuais. Sou totalmente a favor da campanha realizada pela jornalista Nana Queiroz e por tantas outras campanhas de repúdio a violência contra as mulheres, e compreendo também quando algumas (feministas ortodoxas) duvidam de minha postura a favor de suas campanhas (pois o tradicionalismo machista faz com que as mulheres não confiem nos homens, com razão, até mesmo quando estão a favor de suas lutas, e querem lutar juntos).

Só tenho que aplaudir a coragem e principalmente o senso de humanidade de Nana Queiroz por sua campanha, e pela força que recebeu. Ações assim servem, no mínimo, para repensarmos toda uma estrutura sociocultural que impõe preconceitos ultraviolentos contra a figura feminina. Estas campanhas dever ser sim tão violentas quanto os atos sofridos pelas mulheres. Chega daquela falácia do blá blá blá que não leva a lugar nenhum, do tipo sentar em roda e rezar o pai nosso. A agressividade que destrói a vida de uma mulher deve ser utilizada em dobro em campanhas para reverter à situação, e punir imediatamente estes agressores e aqueles que insistem em dizer que “mulher merece ser estuprada”.

Não! Absolutamente não. Mulher não merece ser estuprada. Nada justifica um estupro. Nada justifica a agressão. Nada explica o fato de um indivíduo sair de sua casa para violentar sexualmente ou de qualquer outra forma uma mulher. Mas, você sim, ignorante de plantão, estuprador incubado, enrustido, você sim merece ser punido, pois não tem preparo algum e falta-lhe esclarecimento, base, conhecimento mínimo... você não é e não merece ser um ser humano inserido em sociedade.

Mulher não merece ser estuprada, agredida, violentada, abusada, mulher não é objeto sexual ou objeto de consumo e ponto final.

#EuNãoMereçoSerEstuprada     #VocêsNãoSerãoEstupradas!

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Obs.: Peço desculpas pelo descontrole em alguns pontos do texto. Normalmente, textos gerais eu escrevo de forma imparcial. Mas, como citei, não consigo mais encontrar palavras para descrever tamanha imbecilidade.
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Veja também: Campanha de Combate à Violência Contras as Mulheres