25/02/2013

Às vezes, quando você dorme. - Crônica 42

 Um relato para além do aquário.



― Eu senti tudo. Todos os sentimentos humanos sendo absorvidos por meu corpo. Eu tentava gritar, mas parecia em vão. Tentei esmurrar a lataria, mas parecia que eu não possuía cem gramas de força sequer. O tempo estava parado, completamente parado. Minha mãe no banco do motorista, já desacordada, minando sangue; minha irmã ao lado dela, no bando do passageiro; dava pra ver o que restou do cérebro misturado a fragmento de ossos e cabelo espalhados pelo teto de ferragem distorcida.

Eu estou no banco de trás, um pouco entorpecida por conta do acidente. Grito. Eu grito cada vez mais alto. Mas minha voz não sai, e o tempo continua congelado. A queda parece não ter fim... Mas a ponte não é tão alta.

Estou menos sonolenta, com a adrenalina tomando conta do meu ser. Grito por minha mãe e chacoalho seus ombros e cabeça com violência, para que acorde. Estou tentando soltar meu sinto de segurança, mas está emperrado. A cabeça de minha irmã aberta como uma flor desabrochada no verão, e eu evitando a todo custo olhar para aquela cena. Ninguém por perto. Nem ao menos sei o que houve com o caminhão no qual batemos. Há tanto sangue espalhado que forma um chuvisco vermelho para fora do carro. Consigo ver as gotas ainda no ar, enquanto caímos.

Entendi por que pareço não conseguir gritar. Meu maxilar está em pedaços, praticamente esfarelado. Agora vejo por que sinto tanta dor. Com o susto, tentei por minha língua dependurada, com as mãos, de volta ao que restou de minha boca. O desespero toma conta de mim. Uma cena mais aterrorizante que a outra. Nosso carro ainda caindo, congelado no ar, e minhas lágrimas vertendo como torrentes de meus olhos, tentando encontrar uma saída.

Um barulho altíssimo, que ecoa em minha cabeça. Finalmente caímos. A altura da ponte em relação ao rio não é tão grande, mas mesmo assim há muito barulho. Ainda aflita, tento não morrer afogada. A água invade rapidamente o carro, e parece lavar das paredes e ferragem a tintura cerebral e viscosa de minha irmã.

Estou engolindo muita água. O gosto é terrível. Pesado. Um gosto de agonia. Gosto de caixão. Minha consciência está diminuindo rapidamente. Sinto o gosto da água, como quando tomamos banho e engolimos pouco sem querer. E eu que gostava tanto de tomar banho de chuva. Era uma verdadeira amante da chuva, da água. Mas aqui tudo está diferente. A luminosidade do sol sendo refletido dentro do rio, que tanto era linda, diminui a cada metro que afundamos. Não são apenas os raios solares que perdem força. Meus olhos também, e já começo ter dificuldade para enxergar.

Mais um barulho. Este, porém, abafado. Chegamos ao fundo do rio. É sereno aqui em baixo. Uma tranqüilidade sem igual. Sinto meu coração batendo forte, muito forte, tentando consumir cada milímetro restante de oxigênio em meu sangue. O mesmo acontece com meus pulmões. Não agüento mais. Quero respirar... Ainda, desesperada. Mas não posso... Não consigo.

Sinto a água entrando em meus pulmões. Pesada. Não há mais luz do sol aqui embaixo. Ou não há, ou já não enxergo mais.

Alguns últimos goles forçados tentando buscar oxigênio. Meus olhos tremem como num colapso. Meu corpo todo treme, e tenho espasmos nos membros inferiores e superiores.

Sei que parece uma eternidade. Mas, está acontecendo tudo tão rápido, e sinto cada detalhe em meu corpo e meu arredor. Para quem tinha dúvidas sobre como é sentir a morte chegar, está aqui explicado. Estou morta junto de minha mãe e irmã há muitos dias, não sei bem quanto ao certo. Mas já não há muita pele recobrindo nossos corpos, pois os peixes já se encarregaram de matar a fome. Suas bocas se esfregam com muita voracidade em nossa carne. Faz cócegas. Mas é triste.

Que pena. Infelizmente não reencontrei minha querida amiga Rebeca. Ela faz falta aqui embaixo. Estamos em um verdadeiro aquário. Sinto falta dela comigo aqui embaixo.

Quem sabe minha memória esteja ainda presente. Quem sabe as pessoas ainda leiam minhas palavras. Quem sabe elas ainda se lembrem como foi minha morte.
 
***

Extraído do livro “Rebeca. Alguns não pecam por nada”! Capítulo 7. Marco Buzetto. Copacabana Books, São Paulo: 2013. ISBN: 978-85-63912-01-5