24/04/2011

Crônica - Jovem Lick - Uma idéia qualquer

Crônica 5


Meu nome é Lick. Isto mesmo, Lick. Moro em uma cidadela no de interior chamada Liesville. Tenho vinte e poucos anos, e ganho a vida como jornaleiro; ou seja: ganho em relação a minha jornada de trabalho diário. Faço um pouco de tudo por aqui. Leisville é um lugar tranqüilo, do jeito que eu gosto. Posso ser quem eu quiser aqui.

-- Hey garoto, leve estas peças para a loja do Irlandês.

-- Sim senhor.

-- Na volta, quero que compre algumas laranjas da venda do rabugento Kenny. Pode fazer isto bem depressa?

-- Claro! Já estou indo.

Gosto de fazer um pouco de música com minha guitarra. Mas é uma pena que o braço esteja um tanto empenado... Nada demais. É só uma questão de comprar outra quando tiver algumas pratas sobrando.

-- Boa tarde senhorita White Jones. Como tem passado? – indagava eu a uma bela dama, enquanto minha motocicleta – bem, a motocicleta do trabalho –, enchia o perímetro de fumaça.

-- Olá garoto. Estou muito bem, obrigada. Seu patrão sabe que anda por aí flertando com mulheres casadas?

Essa era a senhorita White. Bem, senhora na verdade. Mas eu gostava mesmo de fazer de conta que era solteira. Era muito jovem e bela para ser casada com aquele desgraçado do Big Paul, da loja de ferragens.

-- Aqui estão suas peças, senhor Irlandês.

-- Seu garoto idiota. Não são estas que pedi. Será que não é fácil anotar um pedido e trazer minhas peças... As que pedi?

-- Apenas trouxe as peças, senhor. Foi meu patrão quem as embrulhou pessoalmente.

-- Sim! Tudo bem... Maldito puritano. Eu falo com ele mais tarde... Sempre querendo enriquecer a custa de alguém... Desgraçado...

Bom, poderiam não ser aquelas as peças. Mas eu não me importava nenhum pouco. Aquelas ou outras, mais ou menos trabalho valeria meu dia de serviço. Eles que se entendam.

Entregue as peças, comprei as tais laranjas na venda e voltei para aquele covil de cães famintos por moedas.

Mas no caminho, lá estava ela novamente...

-- A senhorita fica mais bonita a cada segundo, senhorita White. Quer uma carona até sua casa?

-- Lick, Lick... Pequeno audacioso. Não quero uma carona até minha casa, e tampouco esses elogios carnais, desejosos.

-- Mas parece gostar quando atiro um contra em seu coração.

-- Qual mulher não gosta de um elogio?

-- Bom, então que tal uma carona para minha casa, já que não quer até a sua?

Há meses estou tentando, insistindo em fazê-la sorrir o bastante para arrancar-lhe as roupas. E ela sorria; claro que sorria. Mas ainda não era o bastante. O que mais era preciso? O que mais ela queria de mim?

-- Você não deveria estar preocupado com seu horário de trabalho, com as entregas?

-- Preocupado? Nada disso! Nunca me preocuparia com esta bobagem. Posso ganhar dinheiro com tantas outras coisas. Quem sabe com o que estamos fazendo...

-- Garoto tolo. Tolo, mas atraente. Não podemos continuar com isto, Lick.

-- Por que insiste em me tratar como um garoto? Pelo que sei, temos a mesma idade. A única diferença é que você se suicidou casando-se com aquele maldito.

-- Você não se preocupa com o futuro, Lick?! Tenho certeza que não.

-- Qual futuro senhorita White? O meu? O seu? O futuro acontece a cada segundo. Contento-me em ter o bastante para comprar outra corda para minha guitarra, ou alguns centavos para rodar mais alguns quilômetros de motocicleta. Não quero pensar se vou envelhecer com saúde, ou com dinheiro, ou com uma mulher como você ao meu lado. Pois o futuro eu faço agora. Tenho pena de quem não pensa assim, e planeja a vida toda para descansar apenas quando a morte já está próxima o bastante para retornarmos a realidade.

Ah senhorita White... Que mulher. Que mulher!

Nós fazíamos aquele joguinho de gato e rato, mas sempre terminávamos sobre a cama; desde antes de se casar.

-- Tudo pela glória, senhorita White. Você deveria saber bem.

-- Pare de me chamar assim, Lick. Sabe que prefiro meu nome de solteira. Fazemos este teatro há tanto tempo, que às vezes me esqueço do quanto nos conhecemos.

-- Como quiser Christine. Também prefiro este nome. É mais jovem... Mais real.

Christine Wild, este era seu nome real. Era assim que gostava de ser chamada enquanto rodávamos por cidades desconhecidas, por vilas rurais.

Esta era nossa lição de vida. Ela gostava de fazer de conta que estava sendo real o que fazia apenas comigo, aquela vida simples e prazerosa. E eu fingia esquecer de sua vida com aquele homem. Ela adorava a rebeldia sobre duas rodas com uma Gibson nas costas, e eu adorava aqueles vestidos brancos longos, cheios de pano e difíceis de tirar. Ela gostava dos cigarros e das bebidas, e eu adorava o gosto que tudo isto deixava em sua boca selvagem.

-- Talvez seja melhor pararmos de fingir que tudo está bem.

-- Por que diz isto, Lick?

-- Já passou da hora de cairmos na real. Não podemos mais continuar com isso. Estamos nos arriscando demais. Há anos!

-- Não sei se estou pronta para parar agora. Já faz tanto tempo. Não acredito que não seja de verdade...

-- Por isto mesmo. Não é real! Você sabe muito bem disso. Sabe que não podemos continuar.

Havia chegado à hora de contar a verdade para nós mesmos, e pararmos com toda aquela besteira momentânea que nos perseguia durante anos.

-- Já chega. Vamos parar com isto esta noite. Estas fantasias estão me deixando confuso. Você não é casada, e eu não sou nenhum motoqueiro rebelde. Somos apenas um casal. Christine Wild e Lick.

* * *