24/04/2011

Crônica - As Verdades do Homem

Crônica Três

Humanidade! Sim, esta palavra resume tudo.

Estava eu andando por aí, quando me deparei com uma tarde chuvosa, nublada repentinamente pela fina chuva que se jogava sobre mim e os prédios. Ah aquela arquitetura dos anos 30 que eu tanto gostava, ainda cheirando a talco de bebê, enegrecidas por conta do pó, da fuligem das fábricas, e pelos carros sem filtro no escapamento. A verdade é que nós gostamos do que é novo, mesmo que não valha para absolutamente nada. Se a morte não fosse um final neste plano, todos iriam querer sentir como é estar morto – se tivessem a certeza de que no dia seguinte nada estivesse fora do lugar em suas vidas. Tenho certeza de que as crianças seriam as primeiras... Corajosas como são.

-- Boa tarde senhor Nohope. Como é que vão as coisas? – perguntei eu.

-- As coisas? – retrucou ele. As coisas estão mais feias do que nunca, meu amigo. O preço da gasolina está cada vez mais alto. O pão, o peixe, está tudo subindo pelos ares. E o Governo ainda tem coragem de mentir em nossa cara, dizendo que tudo está resolvido.

-- Isso não parece uma boa coisa, senhor Nohope.

-- E não é, filho. Com certeza não é. Se eu pudesse, mataria a todos, com certeza. Isto sim seria bom. Quem sabe quando eu tiver um tempinho de folga naquela maldita fábrica de pneus... Talvez nunca.

-- Bom, boa sorte meu amigo. Espero que seu emprego não o mate primeiro.

-- Obrigado Nolies. Irei atrás de você, com certeza.

Aquele velho homem, Nohope. Este nunca mentia. Ao menos nunca vi uma coisa assim partida de sua boca.

Bom, que seja. Espero que realize sua vontade. É um bom homem.
-- Hey, senhorita Knows, como é que vai?

-- Como é que vou? Não faço a menor idéia seu cretino.

-- A senhorita está bem? Parece um tanto agitada.

-- Bem eu estaria em uma cama, transando, abrindo meu corpo a alguém desde um amanhecer até o outro. Você sabe... Sabe como é.

-- Não. Desculpe-me. Não sei do que está falando, senhorita Knows.

-- Você sabe muito bem, Nolies. Apenas não quer admitir, isto sim. Até semana passada você é quem me ajudava com isto.

-- Sim. Mas não deste jeito. Lembro-me muito bem. Apenas conversamos, sentados em uma escada num beco fedido, atrás da igreja do padre Godless.

-- Eu sei. Sei muito bem disso. Mas nós somos os donos da terra. Não é isso o que somos, senhor Nolies? Não tenho o direito de desejar e imaginar o que eu quiser, seja lá com quem?

-- Talvez esteja certa, senhorita Knows. Talvez.

-- Pois então, Nolies, minha personagem insaciável. Você estava lá. Estava dentro de mim todo este tempo. Pois não é isso o que sou? Não é este o resumo de minha vida, e da vida de todos os outros ao nosso redor?

-- Realmente. Isto resume muita coisa, senhorita.

-- Pois então, Nolies. Não seja hipócrita, fingindo que todos nós somos inocentes e queremos o bem comum. O Homem quer apenas se saciar, só isso! Você sabe muito bem... Não recusaria se tivesse esta oportunidade; tenho certeza que não.

Pois bem. Este era um bom resumo. Obrigado senhorita Knows... Esta sim sabia o que dizer. Mulher íntegra, generosa para com os outros... Até mesmo com o padre, que conhecia muito bem seus pecados... Até demais.
-- Nolies!... Nolies meu amigo, meu velho amigo!

-- Hey Judie. Como vai?

-- Na mesma, meu amigo. Ainda sou apenas uma farsa.

-- Ora, não fique assim. Todos te adoram.

-- Este não é o fato. Sou apenas um nome na boca de todos. Virei moda! Virei festa e ao mesmo tempo tristeza.

-- Hey Judie, não fique assim! Não é isso o que todos nós somos, minha velha amiga?

-- Sim. Você tem razão, Nolies. Somos apenas nomes, números, registros. Ninguém vale mais nada hoje em dia. Somos, todos, cópias imperfeitas.

-- Cópias imperfeitas? Hey Judie!

-- Sim, Nolies. Não é exatamente o que somos? As pessoas vivendo suas vidas, como se tudo fosse original o bastante. Enquanto esquecem-se que milhares de outros já passaram pelas mesmas dificuldades, ou quem sabe piores. Sou apenas mais umas destas fraudes.

-- Outras como você virão, minha jovem amiga. Disto você pode ter certeza.

-- Pois é, Nolies. Há nomes mais bonitos... Quem sabe o sorriso de Brian resuma tudo um dia.

Aquela garota. Esta sim conhecia a fama. E tinha razão! Somos apenas cópias fraudulentas, desajeitadas.

Vivemos de esperança, de salário, de vontades surreais. Mentimos para nós mesmos, o dia todo. Mas isto cansa; então começamos a mentir para todos a nossa volta. Somos viciados.

-- Nolies?!

-- Senhor? Como, como é que vai?

-- Está atrapalhando meu caminho, Nolies. Sabe muito bem que não quero ninguém em meu livre caminho.

-- Sim senhor. Sei muito bem. Desculpe-me, por favor, Lord Chaos.

-- Como vão os negócios?

-- Melhores a cada dia, Nolies. Estou ganhando mares de dinheiro. Ainda mais com aquela mão-de-obra fácil que conquistei no continente desértico, enegrecido. Além do mais, as cidades estão me dando muita riqueza.

-- Isto parece ser ótimo, senhor Chaos Cash. Parabéns.

-- Sim! Parabéns para mim. Não quero saber se estão com sua saúde em dia, ou se cumprirão seus deveres. Se preciso for, eu os mato e consigo o dobro de pessoas para trabalhar. Isso sim é bom.

-- Conseguirá muitos fiéis, senhor Chaos Cash. Disto o senhor pode ter certeza.

-- Já tenho consciência disso, Nolies, seu tolo. Todos querem um pouco de mim. Pensam, esperançosos, que conseguirão. Tudo se resume ao meu nome, ao meu valor. Todos me querem, sem exceção. Então deixo que vivam de ilusão, e busquem suas felicidades em meu nome.

-- Ajuda muito bem as pessoas.

-- Sim! Mantenho suas vidas regradas, seu olhar focado no trabalho, suas contas controlando suas vidas. Seus gastos, seus ganhos, suas frustrações, suas felicidades, suas vontades, suas vidas, seu cansaço, seu suor e seu sangue, tudo é meu, tudo me pertence. E eu não descansarei enquanto o último não estiver sob meu comando.

-- São palavras fortes, e bem dirigidas, senhor Chaos Cash.

-- E não é bem isso o que vocês são, monte de ossos e carne? Não é para isso que vivem? Para conquistarem riquezas que nunca terão? São apenas marionetes, isto sim! São bonecos, e alguns de porcelana que se quebram em alguns dias. Mas, fabricamos ainda mais em escala industrial. Carne moída encontra-se em qualquer lugar; é fácil de ser feita e consumida.

Este era o velho e audacioso Lord Chaos Cash. Coitado! Acreditava que sua existência representava os valores do Homem. Será esta uma das verdades?

Bom, que seja. Um dia saberemos. Ah! Chaos Cash., tolo. O Homem tem seus próprios valores e vontades. Certo, uma delas, e a mais importante, está em seu nome.

Ah! velho Chaos Cash. Rá! Senhor de vidas!

Eu continuava minha caminhada pelas ruas das cidades, ano após ano. E tudo o que via era aqueles valores das pessoas que encontravam pelos becos ou pelos centros tornarem-se reais.

Porém, o que mais me chamou a atenção estava ainda por vir.

-- Quem é você, senhorita? Qual é seu nome afinal?

-- Me chamo Endline. Não se lembra de mim? Não me reconhece, Nolies?

-- Sinto muito, senhorita Endline.

-- Porque me chama senhorita?

-- Pois é isto o que diz seus olhos, seu corpo, sua aparência.

-- Está errado, Nolies. Sou mais velha que você. E vim em sua busca. Finalmente o encontrei.

-- Já disse, senhorita. Não me lembro de você, nem ao menos de seu nome. Endline. Eu saberia bem, pois tem a face mais linda que já vi.

-- Esta era a verdade que estava procurando, Nolies. Ou estou enganada? A única e derradeira verdade do Homem. A única na qual pode se apoiar sem mentiras.

-- Você fala como se conhecesse a todos.

-- Já tive muitos homens, Nolies. E muitas mulheres também. Já levei comigo crianças, padres, freiras, animais, estrelas. Todos já conheceram minha casa.

-- Você deve ter uma casa muito grande, senhorita Endline.

-- Sim, todos são bem-vindos em minha casa. Pois é para onde vão quando terminam, cansados, e quando a esperança acaba e a realidade bate a suas portas. Sua existência não é mais necessária, assim como a de todos os outros.

-- E porque serviriam de descarte justo agora?

-- Vocês não são deste lugar. Não como deveriam. São parasitas sobre o solo. Uma praga que há de ser combatida, isto sim. Não estão facilitando para vocês mesmos, e não estão cuidando do chão onde pisam e plantam e constroem. Vocês são a infelicidade em uma só espécie, isto sim. Você acha que pode continuar neste lugar, Nolies, meu novo acompanhante? Pensa que pode viver para ver o futuro destas pessoas, e escutar suas histórias? Não Nolies. Nada disso. Você vem comigo, isto sim. Já passou da hora. O futuro é podre, e as pessoas o fizeram assim. Mas a hipocrisia ainda é mais forte do que a verdade em suas almas, pois na medida em que mentem para os outros, alimentam ainda mais mentira dentro de si mesmos, e acreditam nelas. Forjam o mundo de Alice dentro de si próprios, e vivem nele a cada instante. Dormem, e acordam outra pessoa. E isso os deixa felizes, pois podem começar tudo de novo, sem remorso.
Foi assim que deixe-me ir com a senhorita Endline, recém apresentada. Boa garota aquela. Escrevo estas palavras dentro de seu quarto. Realmente é uma enorme casa, onde todos estão. Vez ou outra aparece algum conhecido – gente de todo o mundo.

Pois não é isso o que somos? Parasitas? Hipócritas? Falsos esperançosos?

...
-- Bom dia, Endline, minha amada. Como passou a noite?
* * *