11/02/2011

Crônica - 20.30, 2.6.10

Crônica 30
Depois que ela disse: “mudança de planos”, minhas palavras desapareceram por completo. Como um passe de mágica quase impossível. Fiquei completamente desnorteado, pois eu quis a todo custo estar ali naquele momento, com ela. E minha vontade mestra, súbita, desesperada, era de segurar firme suas mãos e implorar com apenas três palavras: “por favor, fique”. Mas isto não aconteceu... E o melhor ainda está por vir.

Esta é uma resumida passagem do que ocorreu naquela noite, depois de um dia todo de esperança. Esperança esta que poderia muito bem estar titulando esta crônica injusta. Mas não está, pois: mudamos os planos. E isto não é o que fazemos a todo tempo? Não é natural do ser humano mudar o rumo da história, dos fatos, das premissas, de si mesmo e das sociedades ao seu redor? Sim. A resposta é positiva. Mas qual é o sentimento que traduz uma mudança? O número dezesseis que se mostra mais uma vez diante dos olhos? O sentimento de vitória ou de derrota, de ódio ou amor? É correto o que Rebeca um dia disse: “o amor é o que sobra depois que as pessoas já se conhecem bem o bastante”? Isto demonstraria que, para alguns, como o caso desta garota, o amor pode ser um sentimento fácil demais, ultrapassado, pequeno se comparado ao que se pode fazer sentir? E mais uma vez, no ponto de vista deste trigésimo conto, a resposta é positiva. Sim. É exatamente isto. Os bons morrem cedo. Céu e inferno. Não fale com estranhos. Um arco-íris na escuridão. Isto sim. O fim da linha. Eu poderia ser um sonhador; porque não? Nascido no sol ou entre dois corações. Não. Nada disso. São estradas estranhas, mesmo puxando a chuva para baixo. Isto é pra você. Mesmo sendo o senhor dos últimos dias, com sonhos febris. Sim, faça isto: alimente meu coração. Mesmo perdendo minha loucura. Contanto que isto não seja sobre o amor.
-- O que há de errado? – indagava o rapaz. Não é possível... Eu ainda não consigo entender. Será que sou mesmo um mero alguém, e a mágica é forte em meu coração?

-- Você não pode correr para fora do seu coração. – respondeu ela. Mas as pessoas mudam de planos o tempo todo. Isto é natural. Ou não seria esta a realidade da evolução? Não fora assim que se tornou possível a nossa existência, com as mudanças de planos? Talvez isto seja mesmo só sobre o amor.

-- Me parece que sim. – continuava o rapaz. Nós mudamos de plano a todo o instante. Seria esta uma forma de fugirmos sem parar? De corrermos o mais rápido possível? É assim que disfarçamos nossos sentimentos reais e fazemos de conta que não há pureza? É assim que demonstramos o amor, trocando-o pelo medo?

-- Somos feitos de fragilidade. Esta é nossa desculpa mais comum. – contribuía a linda mulher de vestimenta elegante. Está tudo bem. Quando a música parar, nós dançaremos.

-- E por qual razão deixamos a música parar? Haveria motivo real para esta ironia repentina?

-- Talvez haja. – respondeu a mulher de cabelos louros e sorriso prazeroso. Penso que a explicação esteja no fato de preferirmos dançar ao ritmo da vida, pois muitas vezes a música nos leva para outros cantos. E seu décimo sexto número se faz presente novamente.

-- Sim, ele me persegue como um lobo faminto. – respondeu o garoto. Então o ritmo da vida deve ser um pouco mais impaciente. Concorda?

-- Claro. Ele realmente o persegue. – disse. A vida é mesmo impaciente. Mas fazemos escolhas. E por mais que não pareçam corretas para o momento, depois que recaímos a cabeça sobre o travesseiro percebemos que fora fácil. Tudo está perdido. A esperança foi embora. Os sorrisos estão tristes...

-- E em apenas dez minutos tudo se torna tão fortemente vazio e sem sentido, que não parece valer à pena. Estes minutos se misturam a sentimentos de frustração e derrota, obrigando-nos a seguir caminho para fora; mesmo não se tendo para onde ir durante horas. Atravessar uma cidade não parece tão difícil quando se tem pensamentos de tristeza sobrevoando a mente como gigantescas rochas. – dizia o rapaz, tremendo os lábios secos como um deserto.

Mas este diálogo nunca aconteceu. E nada disto um dia haveria de se tornar realidade. Porém, no lugar de todas estas palavras existia um olhar difícil, um tanto pesado para ser sincero, que julgava a distância natural existente entre os pólos sorridentes. E mesmo que estes fatos não tenham acontecido, havia aquela conhecida, imaginativa e desejosa fragrância de lábios e pele que partiam de um corpo feminino ao extremo. Uma fragrância duradoura que transcendia o caminhar de uma realidade fria e tornava toda a escuridão em luminosos e visíveis pontos de paixão; correndo para a liberdade, correndo para ele. O para sempre é agora.

-- Por milhares de vezes o maior de todos os sábios e mestres disse para nunca sonharmos com as mulheres, porque elas sempre nos puxam para baixo; e também para nunca cavalgarmos nas estrelas, pois isto pode não ser real.

-- E nisto você acredita? – perguntou a mulher. Sou tão perigosa assim, deixando você louco? O que mais este sábio dizia? Para não dançarmos na escuridão, pois podemos escorregar e cair? Nunca conversar com estranhos, pois eles estão sempre aqui para fazer-nos entristecer? E você acredita neste deus...

-- Em quem mais eu haveria de acreditar, se não nele? – perguntou o garoto. Neste ponto, acreditar em deus é minha menor ilusão.

-- Dramaturgia é o seu forte também. – respondeu a belíssima mulher adoradora de teatro. Mas acho que você ainda não percebeu. Seu número já passou e você nada falou a respeito. O que, então, finalmente você quer de mim? Uma amante? Uma concubina? Ou a mãe do filho que você jamais terá? Ou então a maior de todas as suas ilusões um dia já vivenciada por um espírito solitário à beira da degenerescência?

-- Todas as minhas ilusões foram reais o bastante para me fazer chorar, minha amiga de duras e amargas palavras. – replicou o garoto. Tudo é real enquanto acreditarmos. Algo só morre quando deixamos de acreditar, caindo no esquecimento. É claro que ninguém nunca haverá de superar minha mestra cigana.

-- Aonde você quer chegar com tudo isto? – continuava a linda mulher a perguntar. Em que ponto da verdade ou da mentira irá parar estes teus pés e mente? Para onde, praga, você há de me levar ainda nesta história?

-- Por enquanto, minha querida e respeitosa amiga, você fica onde em mim há maior felicidade: minha mente. Pois, dentro dela posso comparar a realidade e a ilusão sem ao menos me machucar. – finalizava o garoto de olhos pequenos e grosseiramente esverdeados. Mas não cheire as flores, pois elas podem fazer você perder a cabeça. E um dia veremos o que a realidade pode nos oferecer... Se é que pode. Se é que existe alguma.

Mas o garoto havia de sempre agradecer a existência desta tão sonhada e dispersa mulher. Devia suas alegrias a ela. Devia seu sorriso àquela pessoa. Pois a felicidade se encontrava ali, mesmo que em momentos relampejantes. Uma alegria sincera, que todos nós encontramos uma vez ou outra na vida; e que, várias vezes dentro destas poucas, deixamos escapar por portas entreabertas ou por entre os dedos.

Assim, tiramos o que é bom de todas as coisas, e aprendemos com o que há de pior. Entre frases sem expressão, olhares sem essência, verdades nunca ditas e ilusões jamais vividas. O que é real ou não? O que é fácil ou difícil? O que queremos para nossa vida? É necessária uma vida toda, ou um pequeno momento que faça valer um período semelhante de alegrias?

E cá estamos nós novamente, nos encontrando diretamente no coração, mesmo que tudo isto não seja sobre o amor.

* * *

4 comentários:

  1. Bem, Marco, mudança de planos, isso me assusta!Porque se tínhamos uma plano A, e plano A é sempre o melhor, na hora que partimos para o plano B, é que algo deu errado! E isso realmente me assusta. Mas quem disse que o plano B não pode se tornar melhor que o plano A, não é mesmo? (eu lembrei da propaganda da Pepsi - 'pode ser?'). E quando o assunto é sentimento, outras pessoas, planejar, pelo menos para mim, nunca deu certo. Não adianta planejar algo em 'conjunto unitário' mesmo. Então essa plavra fica mesmo no meu mundo paralelo. "... você fica onde em mim há maior felicidade: minha mente. Pois, dentro dela posso comparar a realidade e a ilusão sem ao menos me machucar." Brilhante, brilhante!!! É isso que pratico o tempo todo, apesar de saber que se desse chance ao mundo real, apesar das feridas que provavelmente iria ganhar, outras coisas boas viriam. Mas eu sou pessimista demais para acreditar que a Lei de Murphy não assombre essa classe.

    T.S. Frank
    www.cafequenteesherlock.blogspot.com

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  2. Obrigada pela visita ao meu blog. Sempre gosto de encontrar bloggs de escritores, pois a literatura é uma paixão que tenho. Sucesso!

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  3. Viajei... rsrs
    Lúdica, criativa, inovadora...

    Parabéns!

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  4. Na boa, eu não tenho nenhum professor como você. E isso me deixa triste. Sim, sério.
    Bom, venho te desejar sucesso. Suas crônicas são fodásticas e eu adoro lê-las!

    Até mais!

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