13/03/2014

Sobre o Colecionador de Desculpas - Crônica 41

Como alguém se deixa cair, como alguém se deixa entrar no vício de colecionar desculpas a todo instante? O que a sonoridade de um pedido de desculpas causa na mente de uma pessoa? Este som, de algum modo, ecoa por entre as paredes do ouvido até chegar ao cérebro, produzindo algum efeito psicodélico e entorpecente que faz com que qualquer um se sinta no dever prazeroso de pedir e querer ouvir mais e mais: “me desculpa”.

No entanto, por mais grandioso que seja imaginar uma só pessoa ouvindo um pedido de desculpas a todo instante de várias e várias pessoas, é o contrário que aqui fica registrado. Aqui, não são milhares de bocas que dizem “me desculpe”; mas sim, uma só dizendo a milhares de ouvidos: “... por favor, me desculpe”.

O colecionador de desculpas não é aquele que ouve, é aquele que as implora; é aquele que pede desculpas em momentos contraditórios, confusos, nos quais tudo pode ser dito, menos esta palavra que parece zombar da cara e dos ouvidos de quem a recebe.

― Me desculpa!? Por favor, me desculpa.
― Não. Para de pedir desculpas. Para. Isso me irrita.
― Mas como? Eu estou pedindo desculpas; dizendo que errei e que não vou fazer de novo.
― Eu não acredito mais. Já ouvi você se desculpar centenas de vezes e nunca é verdade. Talvez nas primeiras vezes, primeiros dias. Mas agora, agora estas suas desculpas parecem não fazer sentido algum.
― Mas faz todo sentido. Claro que faz! E sabe por quê? Por que eu te amo, e quero passar o resto da vida ao teu lado.

E essa foi a primeira vez que o colecionador de desculpas sentiu como era forte o poder em suas palavras, por vezes seguidas de um sorriso discreto, meloso e atraente.
A eternidade durou apenas alguns dias. E a primeira garota foi logo substituída por dezenas de outras que passavam menos tempo na vida do colecionador de desculpas.

― Mas eu te amo. Por favor, me desculpe.
― Eu não acredito! Você está pedindo desculpas de novo?! Chega! Eu não aguento mais esta situação.
― Mas, por favor, entenda: eu não fiz por mal. Não quis te fazer mal. Só falei que penso. Não posso ser sincero?
― Você não está sendo sincero. Está sendo sarcástico, ou hipócrita até. Pare de pedir desculpas. Só está fazendo isso pra eu pensar que estou errada.
― Tudo bem. Então, me desculpe por isso também.

O colecionador de desculpas não fazia tal pedido por mal. Mas sabia sobre sua condição. Em sua cabeça, pela experiência que adquirida com o tempo, em seus relacionamentos, percebeu que ele parecia sempre estar errado. “Por que isso?”, se perguntava; “por que diabos eu estou sempre errado?”; e começou, então, há agir como tal. Seus pedidos de desculpas se tornaram um modo de se entregar a culpa injusta. Pedindo desculpas logo de início, confessando um crime não cometido, fazia com que este o pedido se tornasse uma manifestação de revolta. Assumir a culpa se tornara um modo de negar a impunidade. Afinal,... “Maldição! Só eu estou errado? O que eu fiz?”

Mais uma. E outra. E outra. E mais tantas e tantas pessoas passaram por sua vida. Não apenas relacionamentos. Não apenas os amigos e a família. O colecionador de desculpas atirava seu pedido para todos os lados, pondo-se sempre em uma condição miserável de injustiça. Vítima. Vitimado. O colecionador de desculpas vitimava a si mesmo, cada dia e noite que se passava, se obrigando a assimilar mais e mais sua culpa por "sabe-se lá o quê".

― Sei que me coloco por querer nisso tudo. Mas, quero sem querer. Quero, pois sou obrigado a querer. Sou vítima do erro por estar errado a todo instante. Ninguém assume seu erro, e este peso recai em meus ombros. Sendo assim, assumo e dou moradia.

O colecionador de desculpas sou eu, é você, seu pai e sua mãe, seus irmãos e primos, seu vizinho, seu chefe, seu colega de trabalho... O colecionador quer unanimidade. Quer ser o único a pedir desculpas para todos na cidade. Quer o peso em suas costas cada vez mais denso e desequilibrado. O colecionador de desculpas quer andar na contramão e assumir suas responsabilidades a cada palavra. Mesmo que não tenha responsabilidade alguma. Mesmo que não seja sua culpa.

Autodepreciação como forma de engrandecimento?
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Da série: Velharia Amadora e Literária. Sem data.
Aóristos - Contos Curtos, ©Marco Buzetto.
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