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17/03/2014

Crônica 54 - A Primeira Dose de Realidade (a gente nunca esquece)


Acontece com qualquer um... imagino. Tomara. Suponho que sim... Espero. Enfim...

Pra variar, foi em um dia 16. Dia praticamente normal: conheci novas pessoas – pessoas legais; conversei com gente bêbada e não entendi porra nenhuma de um assunto que seria de extrema importância, caso a locutora estivesse sóbria; dei um beijo de canto de lábio em uma mulher por quem eu tinha o maior tesão (aquele beijo de canto de lábio, quase beijo na boca); noite normal; passeio noturno de motoca pra recarregar as energias e recomeçar a semana (que, sinceramente, não é diferente dos finais de semana pra mim).

Mas então, chega um amigo com um amigo dele a tira colo. Nos apresentamos, coisa e tal, toda aquela formalidade. Papo vai, papo vem, mais gente chapada cortando o assunto... Um vai ao banheiro, volta com outra bebida; retomamos a conversa; aparece mais alguém cortando o barato, pedindo dinheiro. Damos algumas moedas e pergunto: “Você vai comprar cachaça com essa grana”? O senhor sorri, daquele jeito, e finge que não. Então completo, já que é pra cair na risada: “Diga a verdade. Se for pra comprar pinga, fala... que eu dou mais”.

O papo continua, tudo muito bem. Surge um assunto do passado. Do meu passado, pra falar a verdade. Até aí, tudo certo. Mas esse assunto faz o amigo do meu amigo soltar essa pérola: “Eu estou vendo mesmo que te conheço. Então é você. Você é amigo da minha mãe”. Para a surpresa de todos, ou não, claro que não, eu não fazia a menor ideia de quem poderia ser a mãe do garoto. Ele me explica. Boca aberta. Choque. Aquele momento que você ouve a própria respiração...

“Não pode ser. Essa mulher tinha três filhos. Duas meninas e um menino; caçula”. – disse eu. “Pois é, ela mesma. Eu sou o mais novo”. – explicou. “Não... Para com isso. Íamos a três: ela, eu e minha namorada da época, buscar minha cunhada o casal de crianças dela numa escolinha. Não pode ser você, e não deve ser a mesma pessoa”.

Mas era. A mesma pessoa. A mesma mulher. Riqueza absoluta de detalhes. Então abri o jogo. Falei um monte de merda, como sempre. Muita coisa que rolava no, até então, “passado não tão distante”. Não dava pra acreditar: esse carinha sentado bem na minha frente numa mesinha de bistrô, filho de uma das mulheres mais legais que conheci? Aquele filho? Aquele gurizinho que tinha que dar a mão pra atravessar a rua, agora com seus dezoito anos?
Sim. Verdade. Ou isso, ou a universalidade paralela estava me pregando outra daquelas peças impressionantemente plausíveis. Já não consigo tomar nada como concreto na minha vida. Agora tudo é só isso: plausível. Alguém me conta algo sobre o passado? Certo, tudo bem: é plausível. Vem outra e me pergunta se me lembro de quando passamos um fim de semana na chácara da tia dela... “Lembro, claro que sim”. Plausível. Não vou mais dizer que não, e muito menos que sim.

Mas, o fato é que, em algum momento, esse guri, filho crescido daquela minha amiga lá de trás, do passado, me olhou nos olhos e disse essas palavras amargas: “É, você tá ficando velho”.
Foi aí que percebi. Foi nesse momento, de queixo caído, de testa franzida... foi aí que pensei: “Ficando velho”. E me dei conta de que muita coisa que ainda mantinha em mente eram verdades do passado, coisas que aconteceram e me deixaram tão feliz que não deram lugar pra novas alegrias. O passado anda muito próximo, e o passado recente parece que foi ontem, ou hoje de manhã.

Fui pra casa e fiquei pensando: “Será? Será que é isso, então? Uma crise prematura de meia idade? Crise de um quarto de idade?” E continuei especulando: “Será que estou vivendo de passado? Não só de lembranças, de paixões, de tristezas... mas, será que minha imagem é uma imagem do passado? Quem será que sou eu hoje, no presente”?

Foi uma coisa tão simples: encontrar o filho de alguém e ver que a pessoa cresceu desde a última vez que o viu, dez anos atrás, no mínimo. Ok. Normal. Mas, não pra alguém que se pega no meio de uma síndrome de Peter Pan. Parece exagero, eu sei. Mas, sabe aquele momento que a gente se pergunta: “mas o que foi que eu fiz da minha vida até agora”? Aquele momento que a gente vê que seus amigos não são os mesmos, que muitos se casaram; outros passaram dessa pra pior (no caso dos meus). Aquele momento que você olha pra uma garota de dezessete anos e já não sente tesão, por que você já não tem mais dezessete anos a muito tempo (claro que essa é uma narrativa masculina. Mas, sei que acontece com as mulheres também).

Pode ser também que eu não esteja envelhecendo tanto o quanto pensava. Não pareço tão velho assim... Ou pareço? Trinta e cinco? Quarenta?... O espelho não mente. Maldito espelho.
Mas, o X da questão mesmo é o lance do: “o que eu fiz esse tempo todo”? Será que as coisas estão valendo a pena? Ou será que o tempo só está passando, pronto e acabou? Afinal, passa pra todo mundo. Mas, será que o tempo é igual pra todos?

Talvez pela falta de sono, pelas noites mal dormidas, por dias acordado... Pela cafeína em excesso, as transas fora de hora; pelos devaneios, sem ver o tempo passar parecendo que vou pra cama e acordo no mesmo dia, naquela rotina filha da puta de falta de rotina, mais o ritual maçante de dormir e acordar, dormir e acordar, dia após dia... Enfim. Só me lembro de que fui pra cama com essa ideia martelando minha cabeça: “Mas o que foi que eu fiz da minha vida até agora”?
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13/03/2014

Sobre o Colecionador de Desculpas - Crônica 41

Como alguém se deixa cair, como alguém se deixa entrar no vício de colecionar desculpas a todo instante? O que a sonoridade de um pedido de desculpas causa na mente de uma pessoa? Este som, de algum modo, ecoa por entre as paredes do ouvido até chegar ao cérebro, produzindo algum efeito psicodélico e entorpecente que faz com que qualquer um se sinta no dever prazeroso de pedir e querer ouvir mais e mais: “me desculpa”.

No entanto, por mais grandioso que seja imaginar uma só pessoa ouvindo um pedido de desculpas a todo instante de várias e várias pessoas, é o contrário que aqui fica registrado. Aqui, não são milhares de bocas que dizem “me desculpe”; mas sim, uma só dizendo a milhares de ouvidos: “... por favor, me desculpe”.

O colecionador de desculpas não é aquele que ouve, é aquele que as implora; é aquele que pede desculpas em momentos contraditórios, confusos, nos quais tudo pode ser dito, menos esta palavra que parece zombar da cara e dos ouvidos de quem a recebe.

― Me desculpa!? Por favor, me desculpa.
― Não. Para de pedir desculpas. Para. Isso me irrita.
― Mas como? Eu estou pedindo desculpas; dizendo que errei e que não vou fazer de novo.
― Eu não acredito mais. Já ouvi você se desculpar centenas de vezes e nunca é verdade. Talvez nas primeiras vezes, primeiros dias. Mas agora, agora estas suas desculpas parecem não fazer sentido algum.
― Mas faz todo sentido. Claro que faz! E sabe por quê? Por que eu te amo, e quero passar o resto da vida ao teu lado.

E essa foi a primeira vez que o colecionador de desculpas sentiu como era forte o poder em suas palavras, por vezes seguidas de um sorriso discreto, meloso e atraente.
A eternidade durou apenas alguns dias. E a primeira garota foi logo substituída por dezenas de outras que passavam menos tempo na vida do colecionador de desculpas.

― Mas eu te amo. Por favor, me desculpe.
― Eu não acredito! Você está pedindo desculpas de novo?! Chega! Eu não aguento mais esta situação.
― Mas, por favor, entenda: eu não fiz por mal. Não quis te fazer mal. Só falei que penso. Não posso ser sincero?
― Você não está sendo sincero. Está sendo sarcástico, ou hipócrita até. Pare de pedir desculpas. Só está fazendo isso pra eu pensar que estou errada.
― Tudo bem. Então, me desculpe por isso também.

O colecionador de desculpas não fazia tal pedido por mal. Mas sabia sobre sua condição. Em sua cabeça, pela experiência que adquirida com o tempo, em seus relacionamentos, percebeu que ele parecia sempre estar errado. “Por que isso?”, se perguntava; “por que diabos eu estou sempre errado?”; e começou, então, há agir como tal. Seus pedidos de desculpas se tornaram um modo de se entregar a culpa injusta. Pedindo desculpas logo de início, confessando um crime não cometido, fazia com que este o pedido se tornasse uma manifestação de revolta. Assumir a culpa se tornara um modo de negar a impunidade. Afinal,... “Maldição! Só eu estou errado? O que eu fiz?”

Mais uma. E outra. E outra. E mais tantas e tantas pessoas passaram por sua vida. Não apenas relacionamentos. Não apenas os amigos e a família. O colecionador de desculpas atirava seu pedido para todos os lados, pondo-se sempre em uma condição miserável de injustiça. Vítima. Vitimado. O colecionador de desculpas vitimava a si mesmo, cada dia e noite que se passava, se obrigando a assimilar mais e mais sua culpa por "sabe-se lá o quê".

― Sei que me coloco por querer nisso tudo. Mas, quero sem querer. Quero, pois sou obrigado a querer. Sou vítima do erro por estar errado a todo instante. Ninguém assume seu erro, e este peso recai em meus ombros. Sendo assim, assumo e dou moradia.

O colecionador de desculpas sou eu, é você, seu pai e sua mãe, seus irmãos e primos, seu vizinho, seu chefe, seu colega de trabalho... O colecionador quer unanimidade. Quer ser o único a pedir desculpas para todos na cidade. Quer o peso em suas costas cada vez mais denso e desequilibrado. O colecionador de desculpas quer andar na contramão e assumir suas responsabilidades a cada palavra. Mesmo que não tenha responsabilidade alguma. Mesmo que não seja sua culpa.

Autodepreciação como forma de engrandecimento?
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Da série: Velharia Amadora e Literária. Sem data.
Aóristos - Contos Curtos, ©Marco Buzetto.
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Conheça também o Projeto Vida de Incentivo à Leitura. Faça parte desta iniciativa. Juntos podemos melhorar a qualidade de vida de muita gente.

10/03/2014

Ensaios: 1 - Cracked Actor - (e crônica 38)

foto: ©2014 Acervo do autor

"Ser escritor é uma das coisas mais patéticas que eu poderia fazer. Às vezes me sinto com vergonha (por causa da minha timidez) quando alguém me reconhece ou para pra conversar comigo, me chamando de escritor. Não foi minha primeira (e única) escolha. Deveria ter sido músico profissional; ou uma profissão que alguém respeitasse. Sou um escritor frustrado". - Marco Buzetto, 2010.
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Crônica 38

Aske VII

Hoje resolvi fazer uma coisa que há muito tempo mantive vontade, mas nunca, realmente, tive coragem.
Há bastante tempo me despedi de uma pessoa importantíssima em minha vida. Uma pessoa que me fez aprender muito, em pouco tempo. Afinal, dois anos são apenas uma piscada. Muitas lembranças maravilhosas permaneceram em mente, e tantas outras em meu criado-mudo, outras em uma caixa azulada ganhada de presente.

Tenho prazer em manter seu semblante em minha mente, e não quero, absolutamente, me esquecer das coisas boas; e também das ruins. Mas, tinha uma vontade ensurdecedora gritando em minha cabeça, me dizendo para dar um fim em tudo o que era físico que me fizesse lembrar aquele rosto, sorriso e carinho. Daí o fogo. Foi como tudo virou um passado evaporado, esfumaçado, que subiu aos céus e me livrou de um pensar faminto, que comia minhas veias e não deixava o sangue cumprir sua jornada. Queimei tudo o que era físico, e que fazia sua presença permanecer sempre ali, aqui, que seja... Em qualquer lugar. Não que, com isso, eu me esqueça de alguma coisa; mas agora quando olho ao redor, sei que o que vejo é uma imagem diante dos meus olhos: corpo, forma, voz, olhar. Não chego mais do trabalho todos os dias fazendo o mesmo ritual: abrir aquela caixa novamente e ver tudo o que restou, ler todas as palavras belíssimas escritas e sentidas, aquela foto eterna, desenhos, fios de cabelo intermináveis, entre outras coisas ainda mais íntimas.

Fiquei olhando o fogo a queimar tudo aquilo que parecia me fazer mal por conta de sua presença. E repito, quero apenas sua memória. Isso sim me ajuda. Isso faz de mim uma pessoa melhor, talvez. Talvez eu seja uma criança-problema... Ou apenas aquele velho e bom degenerado. Mesmo assim, valeram todos os ótimos momentos, sejam eles bons ou (quase nunca) ruins. Você sabe que estou falando de você. E que isso fique entre nós, registrado para todos que não fazem a menor ideia, mas sabem como são estas coisas. Ironicamente me sinto mais leve, mais tranquilo... Finalmente em liberdade.

Ah!, Contradição. Eu te amo. Sempre te amei. Mas ainda quero me ver livre de você.
Afinal, a quem estou enganando?

sábado, 4 de setembro de 2010
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