25/09/2013

De volta ao Inferno, Parte 1 - Crônica 48

Copyright ©Marco Buzetto 2013

Lá estava Dante, com sua sombra refletida pela luz incandescente do fogo nas paredes do submundo. Com seus olhos cansados, pesados por conta do calor; e a testa suada que minava sobre suas pálpebras e lutavam para não respingar o sal do corpo em seus globos oculares que buscavam em todos os cantos a silhueta de Beatriz. Por ali também estava Sócrates, com seu desapego, levantando problemáticas morais sobre o chamado Bem nos indivíduos, enquanto brindava outro copo de cicuta. Encontrava-se também Platão, cheio de ideais éticos que por ali não valiam muita coisa, contando seus mitos cavernosos à beira do magma; enquanto que sua “décima musa”, Safo, também por lá pregava seus fragmentos diretos da Ilha de Lesbos, dizendo ser o amor a coisa mais bela. Talvez Agamenon estivesse mesmo certo ao dizer que Zeus mandara a sabedoria em forma de sofrimento, não é mesmo Ésquilo? Ah Oréstia! De Píndaro, Sófocles, Eurípides, Aristófanes, a Horácio e Lucius Apuleius, assim como Publius Ovídius Naso... Muitos estavam por lá, com suas palavras, seus dizeres, suas sementes brotadas e jazidas em solo incandescente. Chrétien também expunha seus contos sobre o Santo Graal, enquanto que Santo Agostinho relia Hortensius, de Cícero, aos pés de sua mãe, Mônica, já canonizada. Boccaccio, outro grande mestre da literatura italiana, assim como Petrarca, humanista do gorro vermelho, contava seu Decamerão aos morros e planícies flamejantes com um milhar de crianças pestilentas recitando dez contos diários para afastar os males. Ah estas mulheres sem nomes! Por onde anda Lucrezia, Nicolau? Teria mesmo sucumbido seu útero à mandrágora, ou aos caprichos de um príncipe maquiavélico? Ah Cervantes!, quantos de nós, quixotescos, ousamos nossa primeira obra da modernidade. Não sei se gostam das tragédias de Willian mais que o sofrimento da carne aqui em baixo. Mas, certamente Lear, o rei, também se cansou de seu nome e mergulhou de cabeça no subsolo. Não se sabe se suas cartas sairão daqui rumo a outros planos, mas fazer o que, não é mesmo Madame de Sévigné? Já que gosta desse tradicionalismo francês rebuscado, aristocrático, tudo bem. Contanto que Grigan continue lendo seus relatos, tanto faz. Deveria ter feito como a outra, De La Fayette, tornando o romance uma construção um pouco mais séria. E por mais que o gigante dê passos largos pelos rios do inferno com Swift feito papagaio de pirata em seus ombros, não seria fácil encontrar a luz do dia aqui embaixo. E direto das mãos dos jesuítas em Louis-le-Grand, diga-nos Voltaire, por que abandonar François-Marie Arouet assim que saiu da cadeia com Oedipe a tira colo? Certamente não foi para fugir das mulheres. E abordo do vagão de trem rumo ao inferno esta noite, direto de Frankfurt am Main, o criador do jovem Werther recebe as boas vindas da boca de Fausto, enquanto este procura por seus tesouros em forma de pactos taciturnos. Ah Goethe!, Sturm und Drang em seu classicismo romântico à grega. É possível que Burney, sob o signo de Madame d’Arblay, escrevesse suas sátiras novelescas sobre a vida deste Wolfgang e suas extravagâncias literárias aos risos com o diabo; sendo Wollstonecraft feminista o suficiente, talvez, para afirmar que o mestre do orco fosse mulher. Quem sabe às escondidas com Jane Austen. Mas o inferno também está cheio de liberais das formas e estruturas. Bem nos lembra o audacioso Novalis, que aos vinte o oito anos de vida abraçou a tuberculose, assim como sua esposa aos treze, mas que antes nos legou seus Hinos à Noite. Coitada da pequena Kühn. E como se não bastasse, em um suicídio combinado ao lado de Vogel, Kleist dera adeus a suas expectativas frustradas de ser reconhecido em vida. Mas, fazer o que, se a humanidade não possui idealismo, não é mesmo Balzac? Quanto realismo um ser humano pode aguentar em sua comédia? De Dumas, mesmo circulado por seus mosqueteiros até a esgrima do Conde, do miserável e também francês Victor-Marie sobre os ombros do corcunda. Não fosse o narigudo Emerson acreditar no ser humano divinizado, tantos outros não teriam a mesma coragem de abandonar o ofício de pastor puritano. Ah!, caro Edgar. Se não fosse descoberto por trás da máscara da morte vermelha, talvez Doré não tivesse retratado a bela ilustração do seu corvo no século dezenove. Ao menos não sofrera o ostracismo social que Gaskell conjurou sobre sua Ruth. E por ter se tornado o popstar inesperado tanto à rainha quanto ao jornaleiro, Dickens, já arrumando a cama à espera de seus dez filhos e esposa, assim também quis o diabo, o escritor comicamente grotesco assinara seu próprio óbito ao legar a terminologia de seu nome a toda realidade do século das fábricas imundas. Pelo medo de lhe negarem o sucesso, Charlotte Brontë, mesmo publicando com nome masculino, tornou as mulheres novas personagens independentes, legítimas, inteligentes e fortes em seus textos. Sua irmã, à mesma época, também compreendeu o sexismo vitoriano. Porém, de Currer, Ellis e Acton Bell, fora o morro que acabara por levar todo o crédito de uma história impressionante. Quanto orgulho destas meninas. Quanta lástima também, por suas mortes jovens. Mas, nem só de gênero masculino vive o inferno. Até mesmo a grande baleia branca de Melville por aqui abocanharia algumas embarcações. Pena não existir água o suficiente para manter o Pequod ativo. Quem sabe flutue ainda na imaginação de um sonho obsessivo de Ahab. Por aqui, apenas flores. Flores pequenas e mortais. Flores de pecado, de desejo. Flores do mal, do tipo que Baudelaire adoraria sentir os aromas de pele. O que não saberíamos dizer é se Emma Bovary seria acusada no tártaro assim como Flaubert ao publicar a vida da madame. Para quem nunca teve de trabalhar, burguês às avessas, pelo menos teve tempo suficiente para cuidar de cada palavra à sua contradição. E não venha falar de moral, ou fazer drama ou querer recordações ainda maiores da casa dos mortos, Fiódor, pois você escolheu estar aqui. Quando negou, disse que sim. O estranho, talvez irônico, é está sozinho; nem Svidrigaliov ou Smardyakov te acompanharam. Pasmem! Tampouco Stavrogin te seguiu abaixo da terra. Deveria ter tentado ainda mais o futuro, assim como Verne, dando voltas, mergulhando, voando até à lua, para finalmente adentrar ao tão querido centro da terra neste magma iludido. Deu de cara com a gelatina de fogo. Lamentável. Errou feio à realidade, mas acertou em cheio na construção lisérgica. Tanta empolgação. Tamanha reconstrução da realidade, enquanto alguns ainda brigam, choram e clamam o amor de Ana. Por onde anda Ana Karenina, que cruzava correndo as vielas escurecidas aqui debaixo como uma sombra do além espreitando seus admiradores? Diga Lev Nikolaievich! Diga Leon!, diga, oh eremita Tolstói. Sua não-violência não serviu só para ser excomungado; tampouco como base apenas para o indiano magricela e opiáceo. O que a religião chamaria de pecado, também Rossetti cometera ao manter todo aquele erotismo inocente e sedutor de Goblin Market, pagã de coração enrijecido e confuso pelo crucifixo. Falando em pecado, talvez o maior deles, criar um mártir mesmo sob acusações e boatos, ainda caçando o turpente, teria Dodgson, o autonomeado Carroll, enquanto tirava fotografias nuas de crianças, cometido algum deslize ao escrever uma das três Alices em sua memória? Ou será que aqueles piqueniques com as filhas de Liddell serviram também para... enfim. Não vamos questionar um monstro da fantasia. Ele agora conta suas fábulas aos sussurros, de canto de boca aos súcubos e íncubus para perturbar o descansar dos sonos. A inocência de Huckleberry Finn, a balsa da igualdade no Mississippi, idéias do homem de terno branco e charuto entre os dedos. Mas Tom, qual foi a de Twain ao abandonar sua mocidade escrevendo para os mais moços? O calor da Flórida não se compara ao clima sufocante que agora ele aproveita por aqui. Talvez se lhe dessem um machado, ou um livro direto da academia. A verdade é que Joaquim Maria também satirizou a burguesia do Rio de Janeiro. O difícil é saber quantos ainda beijarão a mão direita do príncipe do sofrimento. Mais difícil ainda é saber quantos deles, quantos chefes do estado do inferno existem por aqui, se cada um dá o nome que quer e faz parecer como quer. Talvez, assim como todos os seus nomes e culturas, todas as nomenclaturas ao pai dos infernos, todos os criadores de novas palavras também sejam parte do mesmo sangue surgido de seu hermafroditismo bestial. Entre as bestas e os vultos, todos acabaram por nascer e morrer sob os signos e pactos do suspiro divino do inferno. Afinal, sem a excitação e os anseios do submundo, sobra apenas a nostalgia da cobertura sem desejos. A felicidade de todo aquele branco e toda aquela paz não criaria novos criadores.
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