05/10/2018

Sobre feminismo, discurso de ódio e desabafo



Eu gostaria e poderia começar este texto de várias maneiras: como um desabafo, um texto livre ou até mesmo um artigo técnico. São tantas as formas com as quais eu poderia abordar este assunto que, sinceramente, não consigo mais decidir sobre qual delas utilizar, pois parece que já me utilizei de todas e, mesmo assim, sempre ressurge a necessidade de escrever mais sobre este tema.
Ainda não consegui decidir por analisar todos os discursos de ódio de nossa contemporaneidade pelo prisma da polarização, como durante a Guerra Fria, a queda do muro de Berlin ou o fim da
URSS (para ser mais seletivo), ou as polêmicas tendenciosas e milimetricamente encaixadas para nos manipular, ou então por análises filosóficas e até mesmo históricas que estão repletas de conteúdo e estudos sobre o tema e com fatos irrefutáveis sobre a questão, que não é só uma questão. Acontece que, para mim, uma sociedade que não consegue debater ou simplesmente conversar sobre igualdade de gênero, principalmente a igualdade das mulheres em nossa sociedade, não tem a menor chance e a menor capacidade de discutir qualquer outro assunto relevante. Como discutir a legalização da posse de armas, legalização das drogas, pena de morte, diminuição da idade penal, gênero e liberdade sexual, educação, aborto, então... impossível!, se esta mesma sociedade não é capaz de aceitar e compreender a importância das mulheres em toda a história da humanidade, em todos os contextos sociais, no trabalho e na reconstrução de países pós-guerras, em movimentos sociais por liberdade sexual, liberdade de expressão (inclusive a mesma liberdade de expressão que muitos possuem para poder falar besteira, para não usar palavra melhor), movimentos sindicais e direito ao trabalho, salários compatíveis, a escolher com quem se quer se casar, escolher se quer ou não engravidar, enfim, como discutir quaisquer questões se não conseguimos deixar o preconceito e o sexismo de lado em uma sociedade que trata o feminismo como um problema a ser resolvido, embasado em discursos agressivos e ignorantes, e resolvido na base de mais preconceito e mais sexismo? Um país que possui quase três milhões a mais de mulheres do que homens, com imensa quantidade de famílias chefiadas por mulheres (37,30% – IBGE 2010) que cuidam sozinhas de seus filhos e suas casas e trabalham nos mais diferentes empregos formais e informais para garantir sustendo e educação? Como discutir qualquer assunto, de política à saúde, à educação, à religião e quaisquer direitos e deveres dos cidadãos se muitos idolatram ídolos retrógrados e compartilham mimeticamente sem nenhuma reflexão mínima suas ideologias extremistas de conservadorismo chulo, deixando de lado o bom senso de olhar seu arredor, dentro da própria casa, e entender que essas malditas mulheres que todos estes combatem são as mesmas mulheres que moram sobre nosso teto, que lutaram pela nossa vida, nossas mães, nossas mulheres e filhas e familiares, nossas chefes e colegas de trabalho? Quando vejo situações assim, de maldizer e maltratar a existência feminina, sinto asco, sinto enjoo e fúria, pois não é possível que ainda exista gente neste mundo tão repugnante a ponto de tratar o estupro como uma punição a qualquer tipo de comportamento, ou o uso de uma roupa curta (na praia, então, seriamos todos estuprados)... Não é possível que ainda tenhamos que ouvir e/ou presenciar este tipo de gente preconceituosa defecando verdades pela boca sem ao menos saberem do que estão falando, tentando catequizar seguidores e condenando ações de educação em benefício comum, chamando estas ações de doutrina comunista ou de esquerda ou feminina, sendo que a luta pela igualdade de gênero não é apenas uma luta deste ou daquele gênero, é uma luta da sociedade pela e para a própria sociedade. É uma luta de todos e por todos nós, pelo nosso bem comum, pela existência social como um todo, e não como fragmentos que nunca se encaixam, pois forçam o preconceito a se embrenhar por todas as frestas.

Fui criado a vida toda por mulheres, pois o “ser conservador”, maçom, respeitado cidadão, casado, o macho alfa e bom-moço, engravidou minha mãe no fim da adolescência e desapareceu (e décadas depois saiu do armário, mas não deixou seu conservadorismo antagônico e retrógrado de lado). Fui criado por mulheres que me trataram como homem, que me ensinaram tudo o que um ser humano precisa aprender para ser uma pessoa de bem e jamais desrespeitar o próximo. E por ser homem, faço questão de me igualar a todas estas mulheres que lutaram para me alimentar, me dar cuidados e educação; e é exatamente por isso que compreendo a totalidade da existência e a importância das mulheres em nossa sociedade. É por isso que consigo olhar para o próximo (não o outro, o próximo, o igual), e enxergar nele o mesmo ser humano que fui ou que me tornei, sabendo de suas necessidades e capacidades. Se fosse o contrário, se eu não conseguisse compreender o feminino em mim e potencialmente em todos nós, eu jamais teria a menor chance de debater ou sequer pensar qualquer tema que estivesse além do meu próprio umbigo e meu egoísmo narcisista.

Maldiga. Se isente. Desconverse. Grite. Esperneie e faça pirraça. Tudo o que você consegue, no fim das contas, é se isolar ainda mais para poder maquinar ainda mais ódio e retrocesso. Essa é a vida tensa, a vida difícil que não te deixa dormir, pois você está dominado pela sua própria prisão, confinado pela ignorância. A notícia boa é que esta ignorância pode ter cura. Mas, só se você quiser.


Cinco de outubro de 2018 – 00h45min.

Nota: Este texto possui continuações em outras postagens, futuras e passadas.
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