14/04/2015

Baixar músicas me faz sentir vazio, sem expectativas.


Lá para meados dos anos dois mil, um pouco antes, na verdade, baixar músicas era uma coisa surreal, demorava tanto quanto esperar para sair o álbum novo da minha banda preferida. Exagerado, certo? Certo. Mas, para quem não se lembra ou não viu, demorava muito. Alguns anos depois, a coisa foi ficando um pouco mais rápida, e a gente já conseguia baixar um álbum inteiro por semana. Um verdadeiro trabalho de garimpo para encontrar o link certo. Isso quando a música não era um vírus, ou vinha corrompida, pela metade ou com aquele barulho estranho de água ou de contato extraterrestre. Aí o garimpo começava de novo e de novo. Mesmo assim, havia certa expectativa em conseguir fazer o download da música, torcendo pela conexão não cair, para sua mãe não esbarrar no estabilizador e desligar o PC... E torcer também para ninguém tirar o telefone do gancho, por que a coisa podia ficar pessoal até demais se isso acontecesse. Hora marcada para entrar na internet.

Mesmo com tudo isso, eu achava genial. Ficava com peso na consciência, sim, por trair minhas bandas favoritas. Mas também comprava os discos e CDs, claro.

Antes o trabalho de garimpo era quase real, físico: ficava sabendo de alguém da cidade que havia conseguido uma fita de uma banda que eu gostava. Aí virava a valha caça a raposa. Primeiro se descobria alguém que conhecia a pessoa, depois o endereço. Quando finalmente eu conseguia encontrar a casa, a pessoa vinha com uma série de exigências para emprestar ou copiar o álbum. Novamente o trabalho de garimpo começava. Se não tinha o que a pessoa queria, normalmente um álbum de uma banda que você não gostava e não tinha em casa, procurava outra pessoa que o tivesse. Um círculo sem fim; trabalho de uma semana correndo a cidade à pé (sim, à pé), para conseguir música.



Por que fazia tudo isso? Por que eu não tinha grana pra comprar muita coisa. Comprar um CD era caro pra mim, e ainda era muito normal fazer cópia de fitas (por que ainda era normal ter um toca fitas em casa e ouvir suas fitinhas nele... E a caneta Bic do lado, claro). Caneta Bic? Pra tirar o tubo e dar uma cafungada na lagarta branca enquanto ouvia o disco? Não! Na verdade era pra rebobinar a fita.

Tudo isso acontecia muito naturalmente. Se construía uma rede de amigos que compartilhavam seus gostos e aquisições musicais. Pelo o que sei, foi assim desde sempre. De repetente se fazia o mesmo para ouvir a nova sinfonia de algum Beethoven ou de algum Tchaikovisk.
O mais legal é que eu dissecava o álbum. Ouvia até estragar a fita ou furar o CD. Semanas, meses, o ano todo ouvindo umas cinco ou seis bandas e álbuns novos.

Hoje, estranhamente, hoje mesmo, dia em que estou escrevendo este artigo/depoimento, abril de dois mil e quinze, me sinto honestamente vazio em termos de downloads musicais. Certo, demorei muito para me sentir assim. Mas, só agora me apareceu essa ideia, terminando de baixar (de novo, por que perdi em algum lugar), a discografia do Deep Purple; que possuía parte em fitinha, parte em CD, inclusive (e vendi).

Não sei se acontece, aconteceu ou acontecerá com mais alguém. Mas, me senti assim hoje, agora pouco. Vazio. Sem expectativas. Pois, pensei: “Acabei de ouvir a discografia do Purple em menos de um dia. Que triste”. É o tempo de lavar minha moto ou limpar a casa e ouvir vários álbuns em sequência.

Me vi com o HD e mais um monte de DVDs com músicas e mais músicas. Muitas delas que ainda não ouvi, pois, não tive tempo. Já não disseco mais os álbuns. Estranhamente não me recordo de nomes de algumas músicas ou do ano de lançamento desse ou daquele álbum.

Percebi que a maior parte do meu conhecimento (em forma de memória) musical ainda é aquela de quinze, vinte anos atrás, entrando na adolescência, podendo correr a cidade atrás de música. Ainda me espanto com os álbuns, claro. Como quando era criança e ouvi meu primeiro disco do Black Sabbath, (Sabbath Bloody Sabbath), e pensei: “Meu deus do céu”! Ou o Apocalyptic Raids do Hellhammer, e pensei: “Nossa, agora eu vou para o inferno, de verdade” (ou coisa assim).

Baixar e baixar músicas está me fazendo um acumulador de arquivos musicais. Não sei se estou conseguindo me explicar, mas é bem por esse prisma. Não tem nada a ver com o gênero musical, gosto ou coisa assim. Mas sim, com a facilidade com a qual eu baixo os discos hoje... e a naturalidade com a qual deixei de comprar CDs e vinis. Os quais até vendi noventa e nove por cento (mais por falta de grana).

Sinto falta de conseguir um disco, sair correndo, chamar um amigo, ir pra casa e ouvir, prestar atenção na música. Conversar sobre o que estava acontecendo. Ainda faço isso, claro. Sobrou muita gente que ainda faz. Mas, até isso parece secundário. Conversar sobre música sempre foi uma boa coisa, e reunir os amigos em volta do toca fitas era mais legal ainda.

Enfim. Ironicamente ao som de “Mistreated”, do Purple, ironicamente mesmo!, fecho esta conversa trivial comigo mesmo.

Porém, uma coisa que nunca vou deixar de fazer, é agradecer ao Rock ‘n’ Roll por tudo o que fez por mim, acordar todas as manhãs e pensar (mesmo aqui no texto, exageradamente): “Ah, o Rock. Ah, a música”! Se é que me entendem.