29/11/2013

Verecundia 5: Aqui, o relato de uma mulher que não quer que os outros se esqueçam. - (Texto 5 de 5)

Aqui está o último texto da série Verecundia.
 
Verecundia: Cinco Textos em Oposição à Violência Contra as Mulheres
 
Texto 5
 
Resumo
 
Este trabalho consiste em uma coletânea de textos que possuem como objetivo tratar sobre as diferentes formas de violência exercidas contra as mulheres. Baseados em fatos estatísticos e depoimentos reais de mulheres que já sofreram algum tipo de violência, este ensaio pretende contribuir para a luta incessante e supranecessária contra a violência feminina, seus formatos e níveis, seja no dia a dia sexista no qual as mulheres estão inseridas, seja na consciência de que uma em cada quatro mulheres será vítima de violência em alguma fase de sua vida, seja também em relação ao pós-ato, sob o estigma e trauma dos quais estas mulheres sofrerão em continuidade de suas vidas.
 
Aqui, o relato de uma mulher que não quer que os outros se esqueçam.
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Tudo aconteceu muito rápido. Eu era jovem: vinte e sete anos. Mulher jovem e bonita como todas as outras. Último ano de faculdade. Cursava jornalismo. Me formei. Porém, uma semana antes de completar o curso, já com a data da formatura marcada, fui agredida dentro do prédio da faculdade. No começo, não pensei que fosse sofrer abuso sexual. Infelizmente, pensei que fosse apenas um assalto e uma agressão física. Digo “infelizmente”, pois, eu realmente não esperava ser estuprada. Não me vinha à cabeça que algumas pessoas ainda eram capazes de cometer estupro, ainda mais em um ambiente universitário. Durante o assalto, apeie muito. Meu rosto ficou desfigurado, tamanho o inchaço. O sangue escorria da minha boca, do meu nariz; enxergava tudo desfocado, embaçado por conta dos socos e tapas que o agressor me dava a todo o momento. Os tapas e socos duraram pouco mais de três minutos, mas foram o suficiente para acabar comigo. Ele disse que queria o dinheiro, o celular e tudo mais de valor que eu tivesse. Uma cena tensa, repulsiva, totalmente desnecessária. Era só anunciar o crime que eu entregaria tudo. Não precisa tanta violência, ainda maior que o próprio assalto. Mas, não contente, continuou a me bater depois que viu minha carteira quase vazia. Final de mês; eu não tinha muito. Cerca de cem reais para voltar de taxi para casa e passar o fim de semana. Quase nada. O indivíduo ficou com tanta raiva que me dava pontapés e socos ainda mais fortes. Tive o fêmur da perda direita quebrado, de tantos chutes que levei. O pulso direito também, quebrado em três lugares, tentando me defender.
 
Depois de me bater ainda mais forte, descontente com o assalto que não lhe rendia muito dinheiro, comigo já quebrada por fora e estirada ao chão, ele resolveu ganhar um pouco mais de outra forma. Eu estava de saia, uma saia longa, rodada, linda, que havia ganhado da minha mãe como presente de aniversário há dois meses. Deve ter despertado ainda mais o fetiche de garotinha colegial no desgraçado. Claro, com o mercado pornográfico, a televisão e a sociedade alimentando grotescamente alguns estereótipos femininos, qualquer peça de roupa se transforma em um convite para o sexo violento. Cheguei a me sentir culpada por estar usando aquela saia justo naquele dia. Ele arrancou minha calcinha como um leão rasgando a pele de um animal abatido, procurando carne fresca, sentindo o cheiro de sangue quente. Comecei gritar. Urrei por socorro. Supliquei religiosamente para que ele não fizesse aquilo. Nada disso adiantou. Me deu outro tapa no rosto, sempre muito forte, e tapou firme minha boca. É impressionante o fato de eu não ter encontrado forças para tirar a mão dele da minha boca. Estava tão concentrada em fechar minhas pernas, que perdi as forças nos braços. Mas também não adiantou. Eu não queria me entregar, mas ele foi muito mais forte. Senti o peso sobre mim. O barulho do cinto dele se abrindo e batendo no chão: barulho metálico. Cuspiu em uma das mãos, passou no pinto e enfiou ele dentro de mim. Senti uma dor vergonhosa, aterradora. Pronto. Eu estava quebrada por fora, por tantos socos, chutes e tapas, e agora por dentro. Feriu meu corpo e minha alma. A partir dali, eu já não existia enquanto ser humano, enquanto mulher. Era apenas um objeto, um deleite, um gozo repulsivo de um sádico.
 
― É assim que você gosta, sua putinha? Hem, é assim?
― Por favor, não me estupre! – implorava.
― Não tem grana pra me dar, então vai ter que dar essa buceta mesmo. Tá me ouvindo?!
― Para, por favor! Socorro! – eu gritava.
― Tá pensando o que? Você não serve pra nada. Só pra isso mesmo... só serve pra gente comer. Para de gritar, puta. Vai dizer que você não tá gostando?! Você tem cara de quem gosta de fuder.
― Por favor, para com isso, eu já te dei o dinheiro... – insistia eu, aos gritos, aos prantos, chorando feito uma criança machucada, soluçando, com muita dor.
― Agora vira. VIRA! – gritou ele. Vou comer teu cu, e você vai gostar. Tá gostando do tamanho da minha rola, num ta?!
 
Foi tudo tão rápido, e ao mesmo tempo um sofrimento eterno. Não demorou mais que cinco minutos me estuprando. Eu só sentia dor. Depois que ele tirou o pinto da minha vagina e enfiou no meu ânus, eu quase desmaiei de dor. Minha boca seca, meu coração batendo a milhão. Aquilo tudo foi a pior humilhação que um ser humano pode passar, tenho certeza. Eu estava morrendo de medo de ele me matar bem ali. Começou me estrangular, apertava forte meu pescoço. Primeiro pensei que fosse para eu calar a boca e parar de gritar por socorro. Depois percebi que não. Me sufocava por prazer.
 
― Tá gostoso, né putinha?! Gosta que eu te sufoco, eu sei. – sussurrava ele. Agora geme alto pra eu gozar.
 
Sacou o pinto do meu ânus e enfiou de novo na minha vagina, com ainda mais brutalidade. Perdi a noção da realidade por alguns segundos. Ele começou com gemidos ainda mais ofegantes, dando sinal de que iria gozar dentro de mim. Implorei novamente para que ele não fizesse aquilo. Mas, quanto mais eu implorava, mais ele apertava meu pescoço. O pinto dentro de mim parecia uma faca quente me dilacerando. Eu não parava de chorar. Respirou fundo, gemeu mais alto feito um animal gruindo, gozou dentro de mim e jogou todo o peso do corpo sobre o meu, mas ainda não soltava as mãos do meu pescoço. Comecei soluçar de choro com mais desespero, e quando ele tirou o pinto aliviando o peso do corpo, vomitei.
 
― Isso é pra você aprender, piranha. Vocês não valem nada. – finalizou.
 
O estuprador saiu correndo enquanto subia as calças. E eu, depois de vomitar de dor, medo e desespero, em um ato instintivo e ao mesmo tempo confuso e irregular, comecei a enviar os dedos dentro da minha vagina, tentando tirar a porra daquele animal de dentro de mim, tentando me livrar do mal que ele me causou, gritando e implorando por socorro. O esperma dele misturado ao sangue que arrancara de mim.
 
Me levantei depois de alguns minutos e corri em busca de socorro. Um taxista me levou para o hospital, onde fizeram todos os exames do mundo. Remédios, injeções, pontos, calmantes, soro. Alguém chamou a Polícia. Registraram um boletim de ocorrência ali mesmo, no hospital. Me perguntaram se eu conhecia o estuprador; respondi que não. Eu realmente não o conhecia. Mas, não era muito diferente de qualquer homem jovem em período universitário. Me pediram uma descrição do sujeito; passei, mas sem precisão alguma. É difícil ter certeza de algo quando se está sendo estuprada. A única certeza que tinha era de que seria brutalmente violentada, e que possivelmente morreria ali mesmo. E foi o que aconteceu. Morri ali mesmo, no chão. Morri enquanto ser humano, enquanto mulher. Meu corpo e minha alma morreram. Tudo foi arrancado de mim naquele instante. Minha vida, até ali, não significava mais nada. Enquanto que o futuro seria representado apenas pelo medo, a vergonha e o desespero. Medo traumático de acontecer de novo, de acontecer com alguém que eu conheça. Vergonha por ter passado por isso. Vergonha do ser humano, por ainda existir pessoas capazes de cometer tamanha atrocidade e selvageria. Vergonha de ser mulher, de ser uma vítima pré-fabricada da violência cotidiana. Desespero do consciente e do inconsciente. Imagens, sons e odores que me voltam constantemente à memória.
 
Minha vida nunca mais foi a mesma depois daquele dia. Hoje, mais de vinte e cinco anos se passaram. Criei uma ONG de combate à violência feminina e auxílio a vítimas de estupro. Decidi, para meu próprio bem, não me esquecer do que aconteceu, para que eu possa fazer com que as pessoas também não se esqueçam que, diariamente, centenas de pessoas são estupradas, mortas, agredidas, violentadas, pelo simples fato de serem mulheres. Saber que crianças, adolescentes, jovens, adultos, mulheres de todas as idades e situações são constantemente abusadas em suas próprias casas, seus ambientes de trabalho e estudo, nas ruas, em espaços públicos, me faz perder o sono. Não quero mais perder o sono sozinha. Quero que todos prestem atenção no que está acontecendo debaixo de seus narizes. Não quero mais que as mulheres sejam vítimas de sexismo, de preconceitos... Não quero mais ver a imagem das mulheres sendo exploradas como objetos, vendendo produtos machistas, servindo de apoio para que homens, empresas e governos machistas enriqueçam e se permeiem no poder. Não quero me esquecer do que sofri e sofro diariamente, não quero me esquecer por que tantas lágrimas ainda escorrem dos meus olhos. Não vou me esquecer, para que eu possa fazer com que todos também não se esqueçam.
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