28/11/2013

Verecundia 4: Aqui, o relato de uma mulher que não se esquece.

Verecundia: Cinco Textos em Oposição à Violência Contra as Mulheres.
Texto 4
Resumo

Este trabalho consiste em uma coletânea de textos que possuem como objetivo tratar sobre as diferentes formas de violência exercidas contra as mulheres. Baseados em fatos estatísticos e depoimentos reais de mulheres que já sofreram algum tipo de violência, este ensaio pretende contribuir para a luta incessante e supranecessária contra a violência feminina, seus formatos e níveis, seja no dia a dia sexista no qual as mulheres estão inseridas, seja na consciência de que uma em cada quatro mulheres será vítima de violência em alguma fase de sua vida, seja também em relação ao pós-ato, sob o estigma e trauma dos quais estas mulheres sofrerão em continuidade de suas vidas.

Aqui, o relato de uma mulher que não se esquece.
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Não faz muito tempo. Na verdade, para mim parece que foi ontem. Todos os dias são parecidos com aquele dia. Sempre que fecho os olhos enxergo a mesma cena, sem escapatória; ouço meus gritos, meus gemidos altos de dor. Vejo em terceira pessoa, fora do meu corpo, meu próprio sofrimento.

Saí de casa naquela terça-feira a tarde, como sempre fazia. Era de costume eu caminhar no final da tarde. Sempre as terças e quintas-feiras, e também aos sábados e domingo pela manhã. Uma horinha de caminhada era o bastante. Quando estava inspirada, duas horas sem intervalo. Nada que uma boa música no fone de ouvido e uma garrafinha de suco de laranja não resolvessem. Meu kit de caminhada.

Às terças-feiras, eu caminhava sozinha. Minhas amigas não podiam ir comigo, pois tinham outros compromissos neste dia. Era rotina, no mínimo há dois anos, se bem me lembro, sem pecar sequer um dia.

Em uma destas terças-feiras, fui pega desprevenida por uma pessoa que pedalava rápido ao meu encontro de bicicleta. Foi como um relâmpago. Na verdade, ele havia passado por mim unas três vezes; eu que não reparei. Sempre na contramão a minha direção. Quando chegou perto na quarta vez, me deu um golpe tão forte no nariz que desmaiei no mesmo instante. Só me lembro da mão dele chegando próxima ao meu rosto, cada vez mais perto, e uma dor nauseante que me levou ao chão. Não era tarde da noite. Nada disso. Final das dezenove horas no horário de verão; final claro de tarde. Pensei que estas coisas só acontecessem na calada da noite, na madrugada, em bairros violentíssimos, em países miseráveis. Mas não. Aconteceu ali, comigo... Nem vinte horas ainda não eram. Fui arrastada para trás de um tapume. Bom, sei que fui arrastada pois desmaiei na calçada, e quando acordei, estava toda ensanguentada da cintura para baixo, com o nariz quebrado, atrás desse tapume. Minha calcinha rasgada, ainda nos meus tornozelos. A calça jogada longe. Minha camiseta enrolada amarrava minhas mãos juntas em minhas costas. Minhas pernas esfoladas no cimento. Dezenas de pedrinhas ainda coladas e meu corpo pela pressão que meu peso exercia sobre elas. Meu rosto doía muito. Muitas marcas de mão em minhas bochechas. Devo ter tomado vários e vários tapas na cara. Quando fecho os olhos para dormir, vejo esta cena se repetindo e repetindo. Durmo a base de remédios mais fortes a cada mês. Quando acordo, de instinto levo as mãos à minha cintura, checando se minhas roupas ainda estão lá. Quando entro no banho, tudo certo até ter de lavar a cabeça. Ao fechar os olhos, aquela cena agressiva novamente, em fragmentos. Não consigo me lembrar do rosto do estuprador, mas me lembro nitidamente dos gemidos. Um filme de terror oitentista. Sinistro. Tão real ainda hoje como no dia em que aconteceu.

Quando me acordaram e me socorreram na manhã do dia seguinte, atrás daquele tapume, de me assustei novamente e tive vontade de sair correndo para muito longe. Eu ainda estava em estado de choque, tão intenso que tentei agredir um dos socorristas. Só depois entendi o que estava acontecendo, já na ambulância. No hospital, fui sedada com doses cavalares até me acalmar. Me deram pontos. Quinze pontos na vagina e nove no ânus. Me deram um coquetel de medicamentos para combater HIV e AIDS; inúmeras coletas de sangue. Os médicos disseram que o estuprador não usou preservativos, e também gozou dentro de mim. Havia esperma no meu útero e na minha boca. Minha reação foi perguntar imediatamente se eu estava grávida. Que susto tomei. Que horror. Imaginar estar grávida de alguém que abusou sexualmente de mim, me agrediu de todas as formas... Por mais compreensiva que julgo a mim mesma, eu não conseguiria olhar no espelho e saber que dentro de mim cresce um filho concebido de um estupro, de um ato tão bárbaro, tão asqueroso. Não que eu não fosse amar esta criança, mas, não sei explicar... Olhar para ela e lembrar que seu pai foi um estuprador que sequer foi preso?! Não. Prefiro não passar por isso. Prefiro não mentir para este filho quando, um dia, ele me perguntar quem é seu pai. Que trauma seria este para ele! Se fosse uma menina, então? Trazer ao mundo uma menina, uma mulher, mais uma mulher que um dia pode ser vítima de violência sexual, além de centenas de outras violências diárias que poderia sofrer? Nunca! Como explicar a ela que um dia poderia ser vítima de estupro? Mas, por alivio presente e futuro – realmente não sei se por alegria –, eu não estava grávida. Eu chorava, chorava e chorava. Chorava muito. Horas e horas aos prantos, desidratando tanto meu corpo em lágrimas que bolsas de soro eram constantemente reconectadas em minhas veias.

Mais uma terça-feira. Uma garrafinha de suco de laranja que minha mãe havia acabado de espremer para mim. Boa música nos fones de ouvido. Algumas centenas de metros de distância de casa. Uma caminhada suave, mas com ritmo acelerado e constante. Algumas pessoas conhecidas me cumprimentando. Mais alguns metros no fim da tarde. O soco no nariz. O desmaio. O tapume. Minha calça atirada ao longe. Minha calcinha rasgada protegendo apenas meus tornozelos. Minha camiseta transformada em corrente prendendo minhas mãos sem movimento. Um pinto entrando e saindo de dentro de mim com tamanha brutalidade que rasga as paredes de minha vagina seca, de tanto medo. Um jorro despudorado de esperma em meu útero. Não o bastante, este mesmo pedaço de carne e músculo esfola meu ânus e rompe algumas pregas. Sangue e mais sangue. Fazer qualquer coisa no banheiro ainda me faz chorar. Há anos sem transar. Há anos sem me deitar com alguém. Há anos não sei o que é tocar intimamente um homem. Tive algumas experiências lésbicas para tentar me relacionar e quebrar o trauma, mas, mesmo sendo uma mulher a me tocar, meu coração ainda pulsa com receio, com amargura, com aquelas lembranças que me agridem. Mesmo o filho da puta tendo me deixado viva, sabe-se lá por que, me sinto morta por dentro e por fora. Não sou mais ninguém. Não vivo. Não morro. Apenas sofro. Apenas choro.
Às vezes, pela rua, observo todas as meninas, jovens mulheres e senhoras a minha volta, me perguntando quantas delas já passaram ou passaram pelo mesmo, por menos ou por coisa pela qual eu passei. Me perguntar “por que eu?” é um exercício constante, uma realidade diária. Mas me traz uma resposta catastrófica, lamentável, que me causa ânsia. Sim! “Porque eu?”. Pelo simples fato de ser mulher. De ser mais uma estatística. De ser um objeto para o prazer masculino... um objeto, um símbolo para a sociedade. Um produto qualquer a ser consumido. Tudo isso pelo simples fato de ser mulher.


Leia o texto 5: Verecundia 5 - Aqui, o relato de uma mulher que não quer que os outros se esqueçam
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Texto 4, de 5. Acesse o link e leia o último texto da série: "Verecundia: cinco textos em oposição a violência contra as mulheres".