27/11/2013

Verecundia 3: Aqui, o relato de uma jovem mulher como todas as outras.

Verecundia: Cinco Textos em Oposição à Violência Contra as Mulheres


Texto 3


Resumo

Este trabalho consiste em uma coletânea de textos que possuem como objetivo tratar sobre as diferentes formas de violência exercidas contra as mulheres. Baseados em fatos estatísticos e depoimentos reais de mulheres que já sofreram algum tipo de violência, este ensaio pretende contribuir para a luta incessante e supranecessária contra a violência feminina, seus formatos e níveis, seja no dia a dia sexista no qual as mulheres estão inseridas, seja na consciência de que uma em cada quatro mulheres será vítima de violência em alguma fase de sua vida, seja também em relação ao pós-ato, sob o estigma e trauma dos quais estas mulheres sofrerão em continuidade de suas vidas.

Aqui, o relato de uma jovem mulher como todas as outras.
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Era tarde da noite. Bom, não tão tarde. Meia noite e quarenta; mais ou menos. Quase uma hora da manhã, se bem me lembro. Estávamos saindo de uma festinha, como em todos os finais de semana. Eu era calouro na faculdade. Primeiro ano de nutricionismo. Sempre gostei de nutricionismo, alimentação saudável, dietas... esse lance mais natural, sabe. Mas sem aquele lance bitolado de vegetarianismo fanático, ou os tipos carnívoros rebeldes, sabe, que não querem nem saber de respeitar sua própria alimentação. Enfim, primeiro ano. Muita coisa acontecendo. Novos ares. Novas experiências. Até namorei um rapaz no primeiro semestre. Sei lá se tive razão em fazer isso. Deveria ter esperado, não sei. Talvez no segundo semestre. Tive boas amigas, bons professores, ótimas notas. O fato é que saí mais cedo de uma das festinhas. Não pela manhã, como era de costume. Não quis ver o sol nascer naquele dia, e fui para casa um pouco antes. O problema é que outro cara resolver pegar o mesmo caminho que eu. Ele não estava na festa com a gente. Nunca havia visto aquele rosto. Ele parou o carro, disse que queria conversar, e logo de cara respondi que não. Mas esse cara era do tipo que não aceitava “não” como resposta, sabe. Nem ele, nem os quatro amigos que estavam dentro do carro. Me cercaram em um círculo entreaberto. Me empurravam um encima do outro, e este me empurrava de volta. Uma brincadeira infantil de um mau gosto tão inacreditável quanto o que vinha depois. Me jogaram dentro do carro com uma mordaça na boca e as mãos amarradas nas costas com algum tipo de fita adesiva. Claro que eu estava chorando, gritando aos prantos. Tantas lágrimas saindo dos meus olhos que mais pareciam torrentes, tempestades tropicais sobre a selva. Um deles, depois de pedir várias vezes para eu calar a boca, me deu um soco tão forte no rosto que desmaiei na hora. Acertou no maxilar, no lado direito. Três dentes quebrados neste local, só por causa do soco de “cala a boca”. Acordei com um deles me segurando pelos braços e outros dois puxando minhas calças pelos pés. Sequer tiraram meus tênis. Puxavam minhas calças com pressa por cima dos tênis, e sacudiam minhas pernas como folhas de papel. Créditos. Sequer sabiam tirar um par de tênis. Eu gritava. Claro que gritava, desesperadamente. Freneticamente. Tão assustada e consciente sobre o que viria a seguir, que mal conseguia pensar o que gritar em socorro. Se gritasse “estupro”, ninguém viria. “Assalto” então, nem pensar. Pensei em gritar “fogo”... Mas tomei outro tapa no rosto que me abriu o supercílio. Tudo girou como uma roda-gigante, uma espiral infinita de medo. Queria que me socorressem, que alguém me ajudasse. Mas, ao mesmo tempo, eu não queria que ninguém me visse naquele estado deplorável de violação da minha humanidade feminina. Queria pedir socorro, mas não queria que me vissem humilhada daquela maneira. Cheguei pensar em ir para casa como se nada tivesse acontecido quando aquilo tudo terminasse, sei lá. Sem contar pra ninguém.

Rasgaram minha calcinha como cães famintos rasgando um pedaço de bife de quinta qualidade. Um puxou para um lado, outro para outro lado. Pude sentir as linhas do tecido daquela minha calcinha nova rasgando uma a uma... uma calcinha tão linda, de renda, delicada, elegante... Nunca mais tive uma calcinha como aquela. Na verdade, todos os modelos me fazem lembrar aquela noite. Noite não tão escura. Uma noite qualquer. Nada de noite sem lua, noite super escura e misteriosa que não tem ninguém na rua. Não. Foi uma noite qualquer... Mas não para mim.

Para parar meu choro, um deles disse que ia enfiar o pau na minha boca. E fez isso. Enfiou o pau na minha boca de tal maneira que pude sentir a cabeça do pinto na minha garganta. Vomitei na hora. Foi nojento. Vomitei todo o jantar e as duas taças de vinho que eu havia tomado algumas horas antes. Ele ficou com tanta raiva que me bateu com abundância. Os outros três riram, riram muito da situação, dizendo que ele havia levado um vômito no pau. Que horror. Imagine a cena, quanta brutalidade, que cena repugnante.

Quando pensei que não seria nada de mais, socaram o pinto em mim. Fundo. Tão fundo que senti os testículos dele apertados contra meu corpo. E começou a meter forte em mim. Enfiava e tirava aquele pinto sujo dentro de mim, sem camisinha, é claro. Quem vai se preocupar com segurança quando se está cometendo um ato incomparavelmente criminoso quanto a este? Nada disso. Sem nenhum cuidado.

Outro deles disse que queria comer meu cu. Comer forte meu cu. Então me puseram em pé novamente enquanto um deles deitava no chão, e me empurraram novamente, agora sobre este que estava deitado. Meteu novamente o pinto em mim. Outro veio por trás, e enviou o pau no meu ânus. Sem dó, nem piedade. Sem lubrificação. Sem saliva. Enviou com tamanha violência que me rasgou de imediato. Eu só conseguia gritar e chorar. Parecia uma eternidade. Não via a hora de um deles tirar uma faca ou um revolver da cintura e acabar logo com a minha vida para eu parar de sentir aquela dor e tamanha humilhação. Estranhamente implorei em minha mente para eles não gozarem dentro de mim, e para nenhum deles ter qualquer doença sexualmente transmissível. “Por favor, seu desgraçado”, pensei eu falando com deus, “se você realmente existe e não provou até agora, não os deixe gozar dentro de mim”. Não pensei isso por maldade. Não quis desafiar nenhuma lei mística ou religiosa. Na verdade, duvidei da existência de deus ali mesmo, naquela hora. Que deus permitiria um estupro coletivo? Minha revolta, então, tinha fundamento.

Fizeram em mim uma dupla penetração com uma agressividade generosa. Nunca imaginei meu corpo sendo violado daquele jeito. E quando eu implorava para pararem, ainda com a mordaça na boca, me batiam ainda mais. Tomei tantos socos, chutes e tapas que meus sinais motores já não respondiam. Perdi no mínimo um litro de sangue naquela noite. Pressão baixa. Minha visão variava segundo a segundo entre tons escuros e claros. Escuros e claros. Como luzes apagando. A cada estocada que levava daqueles pênis em meu ânus e vagina ao mesmo tempo, cada flash de outro pinto sendo socado em minha boca, cada instante me levava a implorar pela morte. É difícil querer sair dessa depois que já não resta mais o que fazer.

Minhas roupas, eu não fazia idéia de onde estavam. Meus tênis, finalmente conseguiram arrancar, mas eu também não os via. Tudo o que eu reconhecia diante de mim eram aqueles quatros seres estranhos me estuprando, tornando minha vida um martírio, tornando o ato sexual a coisa mais repugnante e indesejada do universo. Nunca mais consegui transar. Tive dois ou três namorados há muitos anos depois de tudo acontecer, mas, o cheiro do ser masculino me dava náuseas. Fiquei eternamente traumatizada. Até hoje não saio de casa sozinha. Tudo o que faço é acompanhada. Sempre com uma amiga, sempre avisando meus pais, sempre vigiada por pessoas que podem cuidar de mim (talvez), e que sabem onde vou; pessoas que recebem minhas ligações avisando que irei demorar mais dez, quinze, vinte minutos para voltar pra casa.
Nunca imaginei ser vítima de um estupro, quanto mais um estupro coletivo. Nunca me imaginei chorando com tamanha decepção quanto a existências de seres humanos capazes de tamanha covardia. Nunca me imaginei olhando desconfiada para todos os lados antes de sair pela porta de casa para ir à padaria da esquina comprar algumas baguetes. Nunca imaginei que pelo resto da vida teria de tomar dezenas de remédios diariamente para combater as doenças que me transmitiram naquela noite. Nunca pensei que um dia fosse ter AIDS, e ter minha expectativa de vida diminuída por ser vítima de um estupro coletivo. E em todo momento naquela noite, mesmo implorando, não imaginei que eu fosse sobreviver. Minha vida mudou drasticamente daquela noite em diante. Nunca mais fui a mesma. E todos à minha volta nunca mais foram os mesmos, pois desconfio de todos a todo instante agora. Nunca mais tive certeza sobre nada. Nada, alem de que existem pessoas capazes de cometer tamanha brutalidade com outro ser humano. Não há um dia no qual eu não chore.


Leia o texto 4: Verecundia 4 - Aqui, o relato de uma mulher que não se esqueça.
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Texto 3, de 5. Acesse o link e leia os outros 2: "Verecundia: cinco textos em oposição a violência contra as mulheres".