26/11/2013

Verecundia 2: Aqui, o relato de uma adolescente.


Verecundia: Cinco Textos em Oposição à Violência Contra as Mulheres
Resumo

Este trabalho consiste em uma coletânea de textos que possuem como objetivo tratar sobre as diferentes formas de violência exercidas contra as mulheres. Baseados em fatos estatísticos e depoimentos reais de mulheres que já sofreram algum tipo de violência, este ensaio pretende contribuir para a luta incessante e supranecessária contra a violência feminina, seus formatos e níveis, seja no dia a dia sexista no qual as mulheres estão inseridas, seja na consciência de que uma em cada quatro mulheres será vítima de violência em alguma fase de sua vida, seja também em relação ao pós-ato, sob o estigma e trauma dos quais estas mulheres sofrerão em continuidade de suas vidas.

Aqui, o relato de uma adolescente.
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Certo, que menina nunca sonhou como seria a primeira vez? Todas. Aposto que sim. Minha segunda vez foi terrível, assim como a terceira, a quarta, a quinta... As coisas só começaram melhorar depois da vigésima, eu acho. Parei de contar a certa altura, e só tentava não pensar no assunto. Fazia sexo com pouquíssima frequência. Minha primeira vez? Saí com umas amigas da escola num final de semana pra assistir um lançamento no cinema lá do outro lado da cidade. Um filme bem legal. Então conheci um menino no cinema, lá da escola mesmo. Eu já o conhecia de vista, mas ali a gente ficou conversando, e ele falou que queria me dar um beijo. Foi legalzinho. Um beijinho meio desastrado. Eu já tinha beijado outros meninos. Mas parecia que ele não. Estava com a boca tremendo... Talvez pelo friozinho do ar condicionado.


Na outra semana a gente se encontrou de novo no mesmo lugar, e rolou uns beijinhos. Dessa vez com menos medo da parte dele. Foi uma noite muito legal. Até saímos pra tomar um sorvete; duas amigas e eu, mais ele, um primo mais velho e outro amigo. A noite teria sido perfeita... se naquela noite alguém não tivesse me estuprado.


O primo mais velho desse meu amigo falou que ia me levar pra casa junto com minhas amigas. Realmente levou. Deixamos minhas amigas na casa de cada uma e eu fiquei por último. Era caminho, íamos a pé mesmo. Mesmo sendo um pouco longe, mas aproveitávamos pra dar uma volta pelas vitrines. Ele veio com uma conversinha, dizendo que queria falar comigo sobre o primo dele, e que gostava mais de mim do que o primo e tal. Me arrastou para um beco escuro no fim de uma rua perto de casa, tentou me beijar e eu não quis. Mas ele forçou, apertou meu braço e disse que se eu não desse um beijo, ele não me deixaria ir embora. Mas eu neguei de novo. Ele apertou mais forte meu braço. Já estava doendo muito. Roubou um beijo de mim e enfiou a língua na minha boca. Tentei escapar... Então veio um tapa no meu rosto. Na sequência já estava abrindo o zíper da calça e pedindo pra eu chupar o pinto dele. Claro que eu disse não e tentei fugir de novo. Mas ele me empurrou forte contra a parede. Era um lugar muito escuro e separado das casas de um jeito que não adiantava nem fazer barulho ou gritar, que ninguém ouviria. E realmente não ouviram. Gritei por socorro... Nada. Ele me encheu de tapa puxou minha calcinha pra baixo. Eu estava de vestido, um vestidinho bonito. Não era curto... Abaixo dos joelhos. Eu não estava pedindo pra ninguém me estuprar. Era só um vestidinho qualquer. Mas minha calcinha já estava no chão.

Não deixei de ser virgem por que ele enviou o pinto em mim. Tive o hímem rompido pelos dedos anelar e médio da mão direita dele, não pelo pinto. Senti uma dor violenta. Nunca esquecia aquela dor. Eu chorava aos soluções; tanto soluço que não conseguia gritar, só fazer ruídos pausados que não davam em anda. E ele lá, socando dos dedos em mim. Depois me virou de costas e enfiou o pinto, dizendo que depois iria me comer por trás, que adorava “cu de menina nova”. Falava que ia me comer do jeito que via nos filmes pornôs. E já com o pinto rasgando as paredes da minha vagina com agressividade, socou dois dedos no meu ânus, e eu gritei mais ainda. Muita dor por todos os lados, e vários tapas na minha cara, em minhas pernas e bunda. Eu nem conhecia direito o desgraçado. Só sabia que ele existia por que o via com os meninos lá da rua.

Me empurrou com raiva no chão e falou pra eu ficar de quatro. Estava com raiva por que eu tentava desesperadamente, a todo instante, fechar as pernas e não deixá-lo me violentar daquela maneira. Mas não adiantava. Foi tudo em vão. Ele me deflorou assim, em um beco escuro, com os dedos, depois com o pinto e toda aquela selvageria verbal que me gritava nos ouvidos.

Não consegui ficar de quatro. Que jeito? Apanhando daquela forma, com meu ânus e vagina sangrando e doendo mais que tudo o que eu já havia sentido... Como eu ter forças pra segurar o corpo parado? Cai deitada de barriga no cimento. Bati o queixo no chão e senti o calor do sangue escorrendo... agora por minhas pernas, meu ânus e meu queixo. Ele arrancou o pinto da minha vagina tão rápido que dei um berro de dor, e em um piscar de olhos, deu uma cuspida grossa na mão, passou no pinto e socou com toda força na minha bunda. Estendi o berro anterior ao máximo. Foi uma dor que me deixou totalmente sem energia. Senti a pressão do pinto dele dentro de mim, o calor, o entra e sai seco e rasgado, o meu corpo sendo empurrado contra o cimento sujo do chão e as coisas asquerosas que ele me falava: “eu quero gozar na tua boca, sua putinha”. Então ele começou socar o pinto em mim com mais força, mais velocidade, mais pressão... E empurrava bem fundo o pinto no meu ânus. Uma dor inigualável. Dor de humilhação. Não só no corpo. Dor de ficar lá jogada enquanto ele me comia feito um animal.

Então ele arrancou o pinto de dentro de mim novamente com muita velocidade, e soltei outro grito aterrador de tanta dor. Realmente não sei como ninguém me ouviu gritar naquele beco. Me virou de costas pra baixo, um tapa ainda mais forte no meu rosto que me atordoou... enviou o pinto na minha boca e gozou. “Agora limpa essa sujeira que teu cu fez no meu pau, vaca. Deixa tudo limpinho. Engole essa porra”.

Sufoquei com o pinto e a porra dele na minha boca. Não conseguia respirar direito, sem forças pra nada. Fiquei deitada, chorando copiosamente, pedindo ajuda, gritando enquanto ele saia correndo e erguendo as calças ao mesmo tempo. Minha boca seca, meu corpo todo doendo muito... Desmaiei.


Foi assim minha primeira vez. Assim perdi a virgindade. Assim começou minha vida sexual. Ou melhor: minha não-vida sexual. Foi assim que tive meu hímem rompido por um homem. Assim pus as mãos em um pinto pela primeira vez. Foi assim que fui tocada pela primeira vez... Assim senti a textura de uma ejaculação pela primeira vez.

Foi assim, violentada em um beco num dia de semana a poucas quadras da minha casa. Não perdi só a virgindade e a inocência naquela noite. Na verdade, elas me foram arrancadas, tomadas aos tapas. Foi assim que um bilhão de pensamentos tomou de assalto minha cabeça. Coisas que não tive tempo de filtrar. Foi assim que minha primeira vez marcou minha adolescência. Com lágrimas, sangue, violência, a boca cheia de gozo e o rosto esfolado no cimento.


Leia o texto 3: Verecundia 3 - Aqui, o relato de uma jovem mulher como todas as outras.
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Texto 2, de 5. Acesse o link e leia os outros 4: "
Verecundia: cinco textos em oposição a violência contra as mulheres".